04/09/2020 às 19h00min - Atualizada em 04/09/2020 às 18h36min

Zoológicos: conservação ou lucro exploratório?

O papel dos zoológicos ainda é controverso entre boa parte da população, mas você sabe de fato como esses locais funcionam?

Larissa Campos - Editado por Camilla Soares
Onça pintada - Foto por: Yigithan Bal/Pexels
A discussão sobre a atuação dos zoológicos se torna cada vez mais controversa ao longo dos anos, dividindo opiniões e acalorando discussões. Afinal, os zoológicos são um meio de conservação ou de exploração da fauna?

Fernanda de Souza Sá, Bióloga, Mestre em Ecologia de Biomas Tropicais e presidente do Instituto Waita, explica que os zoológicos já foram um meio de exploração dos animais para lucro, mas essa não é a realidade hoje em dia. “Hoje em dia, os zoológicos sérios tem como prioridade o bem estar animal e desenvolvem um importantíssimo papel na conservação. Vários programas de educação ambiental, fundamentais para a sensibilização da população em geral, são realizados por zoológicos do mundo todo” afirma.

Mas essa não é a única função dos zoos. Segundo Júlia Lima, formada em Ciências Biológicas a atuante no ofício de bem-estar em zoológicos, os parques se mantêm em quatro pilares: conservação, educação ambiental, pesquisa científica e lazer.

Entre esses pilares, Júlia destaca a atuação na reprodução de espécies ameaçadas de extinção, a fim de reintroduzir esses indivíduos em seu habitat natural. Um exemplo efetivo desse trabalho é o caso do mico-leão-dourado, espécie que já teve seu número diminuído para menos de 200 indivíduos, tendo que passar por um processo árduo para sua preservação, onde dezenas de animais foram trazidos de zoológicos do exterior e reintroduzidos na natureza. De acordo com a Associação Mico-Leão-Dourado (AMLD), a população atual de micos chegou ao patamar de 3.200 indivíduos graças a esse trabalho.

Para manter essas ações e a qualidade de vida dos animais que residem no local, os zoos utilizam a renda proveniente das bilheterias. “A cobrança de entrada para a manutenção dos animais, pagamento de salário de funcionários e melhorias necessárias na vida dos animais não podem ser considerados um meio de exploração” comenta Samuel Fraiji, Chefe de bem-estar animal do Bioparque do Rio.

Zoológicos x santuários

De acordo com a legislação, o termo “santuário” não existe, sendo este apenas um nome fictício para os mantenedouros de fauna silvestre. Fernanda explica que a função desses locais é cuidar e guardar animais silvestres provenientes de apreensão ou resgate, que não possuem condições de serem soltos na natureza.

Apesar de possuírem semelhanças, a bióloga destaca que os mantenedouros não têm autorização para reproduzir e expor animais à visitação, dessa forma, não detém função lucrativa.
Para Breno Jancowski, Médico Veterinário de pets não convencionais, essa questão é preocupante, na medida em que os mantedenedouros não possuem educação ambiental, lazer educativo, pesquisa e projetos de conservação. Breno frisa ainda que nos zoológicos, cada visitante age como um “fiscal” do bem estar dos animais que ali residem, diminuindo as chances de que maus tratos passem despercebidos.

A destinação de animais para um mantenedouro ou zoológico é baseada na “disponibilidade das instituições e também no interesse e capacidade técnica de possuir determinada espécie” explica Júlia. Dessa forma, é importante lembrar que ambos os locais possuem a sua importância para o bem estar da fauna no país.


Má reputação 

Em enquete realizada no aplicativo Instagram, das 37 pessoas que participaram, 26 disseram não concordar com a forma de atuação dos zoológicos. Além disso, em outra enquete, 22 das 33 pessoas afirmaram que esses locais são um meio exploração e não de conservação da fauna.

Em contrapartida, quando perguntadas se já pesquisaram mais a fundo sobre a maneira como os zoos atuam, 27 de 35 pessoas responderam que não. Os números demonstram que há uma visão extremamente negativa sobre os zoológicos, mas também há desinformação.

“Estamos em uma época em que as pessoas estão com os nervos muito aflorados e, infelizmente, não se informam o bastante para chegar a suas próprias conclusões. É preciso se informar mais sobre as coisas antes de se posicionar” diz Fernanda.

Apesar disso, a falta de busca por informações não é o único fator preponderante para a má reputação dessas instituições. Ainda hoje existem zoos que visam apenas o lucro e não o bem estar animal, prática essa que precisa ser combatida. Porém, nas palavras de Breno, os bons zoológicos acabam “pagando” pelos maus zoológicos.

Outro fator que pode gerar uma má visão perante esses empreendimentos é a dúvida sobre como os animais são adquiridos. Segundo Samuel, a maioria dos animais de zoológicos brasileiros são provenientes do tráfico ilegal de espécies ou abandono de exemplares nas imediações das instituições.

Extinção dos zoológicos

Algumas pessoas defendem o fim dos zoológicos, o que, de acordo com Júlia, seria uma perda enorme na luta pela conservação da biodiversidade, além de haver uma grande possibilidade da destinação desses animais ter um futuro incerto. “Qual seria o destino desses animais? Será que a quantidade de mantenedouros e outras instituições que recebem esses animais seria suficiente?” Questiona.

Apesar da má reputação, em enquete realizada no Instagram, 30 de 35 participantes revelaram que concordam com a evolução dos zoológicos, não com sua extinção, mostrando que não há uma visão extremista sobre o assunto em parte da população.

Assim, Fernanda completa que os zoológicos estão progredindo a cada dia, “trabalhando para priorizar o bem estar do animal, preservar suas características naturais e respeitar sua ecologia”.

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