06/11/2020 às 11h54min - Atualizada em 06/11/2020 às 09h21min

O livro "Narciso em férias" traz relatos impactantes da prisão de Caetano Veloso

"É claro que nem Gil nem eu imaginávamos que seríamos presos", descreve o cantor Caetano Veloso nas primeiras páginas do livro de memórias

Isabel Dourado - Editado por Gustavo H Araújo
Foto: Caetano Veloso - Reprodução

Preso em 1968 durante a Ditadura Militar (1964-1985), Caetano Veloso conta no livro "Narciso em férias" como foi os 54 dias em que ficou no cárcere. O livro serviu de inspiração para retratar a experiência do cantor no documentário homônimo lançado este ano, que revela como ele foi levado de São Paulo até o Rio de Janeiro. O documentário foi dirigido por Renato Terra e Ricardo Calil. Na frente de um grande muro cinza, cenário onde se passa o documentário, Caetano revive as suas memórias. A censura, na época, impediu que a imprensa noticiasse a prisão de Caetano Veloso e seu amigo Gilberto Gil.

 

Mais de 50 anos depois, Caetano revisitou as memórias do período, o qual ele considera o mais difícil de sua vida. Pela narrativa íntima e detalhada de Caetano é possível entender como foram os duros anos da Ditadura Militar no Brasil.

 

O título do livro, lançado em outubro deste ano, é o mesmo de um capítulo do livro "Verdade Tropical", também de Caetano Veloso. Na introdução, o cantor compara a prisão à obra de Franz Kafka "O processo". A obra é um romance que descreve a história de um bancário que é processado sem saber o motivo. Josef K, o personagem principal de Kafka, foi detido em seu próprio quarto. Ele acreditava que o mal entendido seria esclarecido ao ser convocado para o interrogatório. Comparando a forma como aconteceu com ele, Caetano descreve que foi acordado no meio da noite pelos policiais e levado sem saber o motivo.

 

Caetano relata que sofreu uma espécie de "dissolução de personalidade" ocasionada pelo tempo no cárcere. Na solitária, ele chegou a imaginar que os shows, os amigos, os amores e tudo o que viveu não passava de um sonho. Um dos momentos mais tensos relatados pelo cantor foi durante a saída da cela em que ele julgava estar sendo levado para o fuzilamento. Na verdade, ele apenas estava sendo levado ao barbeiro para ter o cabelo cortado.

 

No livro de memórias, ele relata que os dois meses em cárcere não se comparam às pessoas que sofreram torturas e morreram nas prisões brasileiras a partir de 1968. “Quando penso no número de pessoas que morreram em prisões brasileiras a partir de 68, concluo que minha prisão de dois meses é um episódio que nem sequer mereceria referência”, escreve o cantor.

 

Apesar de fazer essas considerações sobre a sua história, Caetano Veloso revela momentos difíceis. Um deles refere-se a quando estava na solitária e teve que fazer as refeições no chão. Caetano e Gilberto Gil foram fundadores do Tropicalismo, movimento que sacudiu a música popular e a cultura brasileira. O cantor foi acusado de cantar a letra do Hino Nacional em ritmo de Tropicália. Tanto o livro quanto o documentário trazem relatos íntimos e pessoais de um "Narciso" cerceado pelo autoritarismo, pela repressão e pela censura.




 

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