13/11/2020 às 22h26min - Atualizada em 13/11/2020 às 22h09min

Por que as mulheres nunca se sentem boas o suficiente?

O livro “Síndrome da Impostora” de Rafa Brites aborda a questão de a mulher se sentir insuficiente no que faz

Andrieli Torres - Editado por Bruna Araújo
Reprodução: capa do livro - divulgação
Toda vez que Rafaela Barbosa, 26 anos, planeja realizar suas tarefas rotineiras é invadida por um sentimento de incapacidade. Antes mesmo de tentar fazer algo comum do seu dia a dia, ela é tomada pela sensação de que não conseguirá e que, talvez, o melhor seja nem tentar, para evitar frustrações.

Rafaela alimenta a culpa por não ser tão produtiva quanto acha que deveria. Ela acredita ser uma pessoa insuficiente. Ela é esmagada pela pressão dos familiares, amigos, redes sociais e todo o mundo exterior. Ela precisa ser cada vez mais produtiva, precisa ser ativa, envolvida em atividades. Não há tempo para pensar em saúde mental.

O medo e a insegurança de Rafaela são paralisantes. Ela se sente uma impostora quase em todos os momentos da sua vida em que precisa colocar seu conhecimento e habilidade em prática. Ela não confia em si mesma, se enxerga de forma distorcida e sempre se diminui quando se compara com os outros.

O drama de Rafaela está longe de ser incomum. O mesmo aconteceu com a repórter e apresentadora Rafa Brites, autora do livro "Síndrome da impostora” (Academia, 2020). Na obra, ela compartilha a própria experiência com o tema, o sentimento de insuficiência. O livro não tem uma abordagem cientifica, mas sim afetiva e acolhedora, com o intuito de ajudar outras mulheres que também passam por este fenômeno.

Em entrevista ao portal O Globo, Rafa disse que que nunca se achava boa o bastante e que não merecia tanta atenção por seu trabalho na TV. Ela contou ainda que a primeira lembrança que tem em relação a se sentir uma impostora foi quando foi fazer um concurso de trainne em uma empresa multinacional e após muitas etapas ficou em primeiro lugar. “Entrei em desespero, tendo certeza de que não tinha capacidade de ocupar aquela vaga. A qualquer momento, iam descobrir que tinha passado por sorte, que eu não era a melhor”, pontuou.

Além disso, comentou também que ainda teve que ouvir comentários machistas, pois ia ter que viajar com o CEO da empresa. “Acabei desistindo da vaga. Parei de responder às mensagens do RH”, completou.

De acordo com a psicóloga Nathálya Calina Rolim, a “Síndrome do Impostor” recebe esse nome por que a pessoa se sente como uma farsa no mundo, ou seja, alguém que estaria mentindo para os outros e que poderia ser desmascarado a qualquer momento. “Essa enganação que supostamente a pessoa estaria fazendo, seria relativa às suas habilidades, competências, conhecimento, capacidade, etc. Está muito comumente associada a questões profissionais e acadêmicas”, esclarece.

Segundo a especialista, apesar da síndrome não ser considerada um transtorno psicológico ou psiquiátrico pelos órgãos de saúde, ela se trata de um fenômeno comportamental descrito por Pauline Rose Clance nos anos 70. A partir disto, algumas pesquisas e debates estão sendo feitos sobre essa temática.

Rolim ainda ressalta que a síndrome está relacionada à ansiedade e à insegurança e assim, a pessoa passa a ter dúvidas sobre as próprias capacidades, limites e qualidades. “Trata-se, portanto, de uma inferioridade ilusória, ao contrário do que observamos no fenômeno Dunning-Kruger (fenômeno definido por uma superioridade ilusória em que, indivíduos pouco capacitados se enxergam com superioridade em relação aos demais)”, pontua.

Para a psicóloga, na “Síndrome do Impostor” o indivíduo se recusa a aceitar o seu sucesso e alega que seja sorte, oportunismo, religião, ou ao acaso, o motivo para as conquistas. “Ou seja, sentem que ocupam posições porque foram, de alguma forma, capazes de enganar seus pares, fazendo as pessoas acreditaram que são mais inteligentes e capazes do que realmente são.”

Ela comenta que isso é mais comum do que se imagina. “Pesquisas estadunidenses apontam que cerca de 70% das pessoas consideradas “bem sucedidas” apresentam sintomas relacionados à Síndrome do Impostor. Ambientes de alta competitividades, processos rigorosos de seleção, altas exigências dos indivíduos colaboram para manifestações deste tipo. Não à toa que na academia, sobretudo com alunos de mestrado e doutorado, foi observada uma alta prevalência da síndrome.”

Rolim enfatiza que as pessoas passam a se auto sabotar por terem medo de serem descobertos pelos outros, assim prejudicando a si mesmos. Além da autossabotagem, ela diz que é frequente observar o esforço exagerado para justificar as conquistas, autodepreciação, medo de exposição e também a procrastinação.

Alguns estudos revelam que isto é mais comum entre as mulheres, especialmente naquelas bem-sucedidas e em profissões historicamente exercidas por homens. “Outros estudos, no entanto, revelam que ela incidiria em igual proporção entre mulheres e homens. Porém, é uma unanimidade o índice elevado em acadêmicos, em especial estudantes de pós-graduação. Aparentemente, os adultos jovens, que estão em ascensão profissional, são mais propensos a apresentar sintomas relativos à esta síndrome”, destaca.

Ela alerta que, caso haja suspeita de indícios da Síndrome do Impostor, o melhor direcionamento é procurar um psicólogo, pois esse profissional poderá ajudar a identificar o que poderia estar relacionado a isto e ajudar no autoconhecimento. “Além disso, alguns encaminhamentos podem ser necessários para um compartilhamento do cuidado com outras especialidades. Portanto, não hesite: procure ajuda”, completa.
 
Nota: O nome real da personagem entrevistada foi trocado para proteger a privacidade dela.
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