12/03/2021 às 20h41min - Atualizada em 12/03/2021 às 20h17min

Calcinha absorvente é opção sustentável, mas não é acessível à toda população brasileira

Mesmo sendo ecológicas e reutilizáveis, elas ainda possuem um alto custo

Ana Luiza Sousa Peixoto - Editado por Larissa Barros
Divulgação

Os absorventes descartáveis, internos e externos, já estão em uso há anos pela população feminina e já não são mais novidade para ninguém. Nos dias de hoje, por mais que parte da população não tenha acesso a eles, os absorventes descartáveis são encontrados com facilidade em farmácias, mercados, conveniências e, a curto prazo são mais baratos. No entanto, é preciso ficar atentas, pois, o seu uso causa grandes males ao meio ambiente.

Em 2017, uma ideia revolucionária chegou ao mercado brasileiro: as calcinhas absorventes. Elas são calcinhas usadas durante o período menstrual e são compostas por várias camadas de tecidos de alta tecnologia que fazem a absorção do sangue sem inflar, deixando a pele sequinha. Se higienizadas da maneira correta, elas podem durar até três anos e com isso, evitar o grande descarte de lixo no meio ambiente. Nos primeiros anos da calcinha no Brasil, as opções não eram tantas, mas, o mercado cresceu e temos a presença de várias marcas, como a
Pantys
, Hope, Inciclo, Herself e Korui. 

 

Absorventes e o meio ambiente

Em 2016, um ano antes da chegada do produto no Brasil, a apresentadora de televisão e culinarista brasileira, Bela Gil, causou polêmica nas redes sociais ao apresentar aos seguidores sua calcinha absorvente, dizendo que não fazia mais o uso dos comuns absorventes descartáveis e nem de coletores menstruais, já que, eles não davam conta do seu fluxo e ainda a preocupavam devido aos resíduos gerados pelo descarte. A questão ambiental está diretamente ligada ao descarte dos absorventes.

Segundo o instituto Akatu, organização
sem fins lucrativos que trabalha pela conscientização e mobilização da sociedade para o consumo consciente, estima-se que, uma mulher produza cerca de 200 kg de lixo durante sua vida menstrual (desde a menarca até a menopausa). Levando em consideração que o plástico é o principal material dos absorventes e que são descartados em aterros e lixões na grande maioria, sua decomposição pode durar mais de 400 anos.

Gabriela Marcotti, analista de sustentabilidade da marca Pantys, conta que o cálculo para entender o descarte de absorventes é muito relativo, pois, c
ada mulher tem um fluxo menstrual e usa uma quantidade de absorventes. Por isso, o cálculo exato não dá pra obter. "O que a gente sabe é que em um ano, uma mulher usa até 400 absorventes descartáveis, então significa que se em um ano ela usar as calcinhas absorventes, ela deixa de descartar essa grande quantidade de lixo”, explica.

A marca Pantys possui um tecido biodegradável que se decompõe em aterro sanitário em até 3 anos, pois possui carbono neutro, ou seja,  mede, reduz e compensa as emissões de carbono durante todo o ciclo de vida da calcinha, da produção até o descarte.


Funcionamento das calcinhas absorventes

As calcinhas absorventes possuem camadas de tecido que possibilitam uma experiência completa. Elas são absorventes, impermeabilizadoras, ecológicas, reutilizáveis, laváveis e antimicrobianas, impedindo a proliferação de fungos e bactérias. Normalmente, as peças são divididas de acordo com a intensidade do fluxo menstrual (leve, médio e intenso) e desenhada para corpos plurais, possuindo diversos tamanhos para cada tipo de corpo. 
 

Para a estudante de medicina, Gabriela, antes de testar a calcinha, sua principal dúvida era se ela funcionaria, se daria conta do ciclo, se conseguiria conter possíveis vazamentos, como era o mecanismo dela, e se ela conseguia absorver sem inchar e ao mesmo tempo não ficar com odor.
 

“Eu gostei muito das experiências que eu tive, já experimentei mais de uma marca e todas deram certo. O que normalmente muda entre as marcas são os tecidos, os formatos e elas cumprem muito bem o papel, fazendo a absorção sem que fique desconfortável ou que sinta que está molhado em algum lugar. Acho confortável e acho prático. Além disso, um benefício que eu gosto da calcinha é que como ela é reutilizável, eu não preciso sair para comprar absorventes quando eu menstruar, pois a calcinha já estará lá”, afirma a estudante.

O modo de lavagem das calcinhas varia muito de acordo com cada marca. Apesar disso, em sua grande maioria, a lavagem pode ser feita à mão e com sabão neutro. Já a secagem, deve ser feita ao ar livre, no sol ou na sombra, mantendo-a em lugares ventilados e sem o uso posterior de ferro, secadora ou secador, pois estes podem danificar seu tecido.

 

Acessibilidade x Pobreza menstrual

As calcinhas absorventes, por durarem por mais anos, possuem um preço mais alto do que os absorventes descartáveis. Os preços variam por marcas, modelos e de ciclos menstruais, variando de R$55,00 até R$109,00. De acordo com a analista de sustentabilidade, Gabriela, “o que faz com que as mulheres optem pelo absorvente descartável, além da falta de conhecimento sobre o produto é a questão financeira que, no curto prazo, realmente os absorventes descartáveis são mais baratos, mas ao longo prazo, as calcinhas absorventes são bem mais baratas”.


No Brasil, a pobreza menstrual é uma realidade dura e visível. Enquanto camisinhas são distribuídas gratuitamente para a população, os absorventes utilizados para a higiene menstrual, não opcional às mulheres, não são dados de forma gratuita tornando-se escasso para mulheres em situações de rua, nas periferias e nas penitenciárias femininas, por exemplo. Sem o acesso ao absorvente, o uso de miolos de pão, tecidos e jornais se torna comum e consequentemente, doenças bacterianas e infecciosas acabam se manifestando no corpo da mulher pela falta de um cuidado básico.

“As calcinhas absorventes podem combater a pobreza menstrual no sentido em que a mulher não vai precisar receber absorvente todos os meses. Quando se faz uma distribuição de absorventes descartáveis nas penitenciárias, escolas ou ONGS, você tem que ser consistente e todos os meses enviar absorventes, enquanto uma calcinha, você pode enviar e ela durará até 3 anos. Acredito que esse mercado ainda vai crescer muito, porque ele é revolucionário. Existem diversas maneiras de, aos poucos, deixar esse produto acessível, já que cada vez mais as mulheres vão sentir a necessidade de usar calcinhas absorventes”, explica Gabriele Marcotti.

 

As calcinhas absorventes são poderosas e podem se transformar no mercado. Com alta tecnologia, ela nos permite cuidar do nosso corpo e ao mesmo tempo, ajudar o ecossistema, sem prejudicá-lo. A sua acessibilidade aos poucos deve ser mais facilitada  para que todas tenham um acesso igualitário, contribuindo para que a pobreza menstrual decresça no país. Tornar o produto conhecido e mostrar sua importância ao mundo é o caminho para que sua democratização torne algo real e eficaz.
 


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