02/04/2021 às 12h51min - Atualizada em 02/04/2021 às 12h42min

Como o fenômeno da “vingança da hora de dormir” evidencia as falhas do sistema de trabalho atual

A escassez de tempo de sono é uma epidemia global, apesar de ser gravemente subestimada.

Júlia Mei - Editado por: Celine Almeida

A pesquisa Philips Global Sleep de 2019, que fez mais de 11 mil entrevistas em 12 países, mostrou que 62% dos adultos pesquisados sentem que não dormem o suficiente. Dormem em média 6,8 horas nos dias de semana, menos do que as 8 horas recomendadas por especialistas.

Longas jornadas de trabalho são parte do problema, a outra parte é que as pessoas têm cada vez mais dificuldade em traçar limites entre as vidas profissional e pessoal, ainda mais com a tecnologia nos tornando acessíveis para o trabalho 24 horas por dia, sete dias por semana.

Com a pandemia, empresas em muitos países implementaram políticas de home office, tornando a vida profissional dos trabalhadores mais flexível, em alguns casos, mas também dificultando a separação da barreira já tênue entre trabalho e tempo pessoal.

 O caso é que uma das formas mais importantes de se recuperar do trabalho é pelo sono, mas o sono é afetado por quão bem conseguimos nos desconectar. Além disso, é importante ter tempo livre quando conseguimos nos distanciar mentalmente do trabalho, o que explica o paradoxo em que muitas pessoas se encontram: ao se distanciar mentalmente do trabalho é a hora do lazer, mas esse distanciamento só acontece na hora de dormir. Nesta disputa entre sono e lazer, muitas vezes, o sono acaba sendo sacrificado.

Este cenário deu espaço para um fenômeno chamado por alguns pesquisadores de “procrastinação da hora de dormir”. Não é um fenômeno novo mas, para algumas pessoas, se intensificou durante a pandemia. 

A procrastinação da hora de dormir pode ser resultado de uma combinação de tecnologia e ansiedade. Pessoas que sentem que não tem controle sobre o próprio tempo, tentam achar um jeito de recuperar um pouco desse tempo ficando acordado até muito tarde. É um impulso relacionado à busca por autonomia em uma realidade cada vez mais desgastante.

Entre os jovens chineses, o fenômeno ganhou o nome "bàofùxìng áoyè", que pode ser traduzido como "procrastinação de vingança da hora de dormir" em que as pessoas ficam acordadas até tarde como "forma de retaliação".

O hábito pode ter surgido como consequência da exaustiva cultura de trabalho 996 (das 9h às 9h, seis dias na semana) nas empresas chinesas, principalmente nas sediadas em grandes cidades. Na China, uma pesquisa nacional em 2018 mostrou que 60% das pessoas nascidas depois de 1990 não dormem o suficiente e que aqueles que moravam nas grandes cidades eram os que mais sofriam.

Heejung Chung, socióloga do trabalho na Universidade de Kent (Reino Unido) e defensora por mais flexibilidade laboral, vê a prática de sacrificar o sono como culpa dos empregadores. Argumenta que combater isso beneficiaria os empregados, mas também criaria um "ambiente de trabalho mais saudável e eficiente". De acordo com a socióloga, diminuir a carga horária e permitir que os funcionários tenham períodos de lazer poderia aumentar a produtividade e ser benéfico para as empresas.

O cientista comportamental Floor Kroese, professor assistente de Psicologia da Saúde na Universidade de Utrecht e principal autor do estudo que introduziu a procrastinação na hora de dormir, observa que também há uma ligação entre a procrastinação na vida diária e a procrastinação do sono.

“Uma diferença interessante pode ser que as pessoas geralmente procrastinam as tarefas que consideram aversivas - tarefas domésticas, lições de casa, tarefas chatas - enquanto dormir, para a maioria das pessoas, não é nada aversivo”, diz Kroese. “Podem ser as rotinas da hora de dormir que precedem ir para a cama que as pessoas não gostam ou simplesmente não gostam de parar o que quer que estejam fazendo.”

É normal que as pessoas queiram um tempo para si mesmas durante a noite, mas isso se torna um problema cíclico quando elas ficam cansadas durante as horas em que estão acordadas devido à falta de sono. Em vez de simplesmente ir dormir, apenas para começar tudo de novo no dia seguinte, essas pessoas se recusam a ir cedo para a cama, mesmo estando exaustas e sabendo que o sono é essencial para a saúde.

Não dormir o suficiente leva a privação de sono, o que pode afetar a saúde mental e física, levando a consequências como diminuição de produtividade e o aumento de cortisol, hormônio do estresse.

Recuperar o sono perdido nem sempre é fácil. Em detrimento da rotina agitada, muitas pessoas optam por dormir mais nos fins de semana, mas, de acordo com um estudo de 2019 na Current Biology, essa não é a maneira mais eficaz de recuperar o sono perdido. Segundo os pesquisadores, se alguém dormir até mais tarde nos fins de semana, mas a qualidade do sono for ruim, essa pessoa tende a comer mais e ganhar peso.

Para tentar driblar o impulso, uma alternativa é desligar aparelhos eletrônicos e não levá-los para a cama, já que as telas emitem uma luz azul que pode suprimir a liberação de melatonina, o principal hormônio responsável pela regulação do sono.  

Conseguindo driblá-lo ou não, o fenômeno, que pode ser descrito como "pessoas que não têm muito controle sobre sua vida diurna recusando-se a ir dormir cedo, para ganhar alguma sensação de liberdade durante a noite" ressalta as falhas do sistema de trabalho atual em todas as partes do mundo.

 
 

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