09/06/2021 às 11h05min - Atualizada em 05/06/2021 às 16h24min

Das telas de cinema às grifes mundialmente conhecidas: entenda a banalização do uso da pele animal

O debate ainda está longe de acabar, pois algumas marcas ainda defendem a prática

Desirèe Assis - Editado por Larissa Barros
Reprodução | Pexels

O debate sobre o uso de pele animal no setor fashion, as condições em que vivem os animais e como são tratados está distante de se encerrar. Isso porque, ainda existem marcas que “batem o pé” em defesa da “alta peleteria”. A Fendi, cujo diretor artístico é Karl Lagerfeld, insiste nas peças feitas com pele, já que foi pioneira no mercado. 
 
De acordo com o site Fashion Network, em 2018, o estilista teria afirmado que a marca optou por abraçar as peles justamente porque as outras grifes estão “fugindo disso”.
 
“Enquanto as pessoas continuarem a usar couro ou comer carne, as peles, provenientes de animais tratados de forma decente como é o caso da Fendi, sempre serão legalizadas e desejadas”, afirmou em seu salão privado nos bastidores após o desfile da London Fashion Week. 
Entretanto, ainda há uma “luz no fim do túnel”. Se marcas como a Saint Laurent, Dolce & Gabbana e Fendi compactuam com essa indústria e levantam essa bandeira a favor dos usos da pele, outras grifes como Valentino, Chanel, Michael Kors, Versace e Gucci repudiam a crueldade animal. Todas caminham para uma posição muito mais ética e ecologicamente correta. 
  
Ostentação e luxo falam alto
O recuo dessas grifes, muitas vezes, está relacionado com as pressões dos movimentos de proteção animal, além do próprio mercado. Porém, o que faz com que algumas marcas ainda escolham utilizar peles animais e até quando essa indústria sobreviverá? 

Para a estudante de moda pela Universidade Anhembi Morumbi, em São Paulo, Isadora Papa, esse desejo por peças feitas com pele animal permanece porque ainda é vista como algo luxuoso. 
“As peças de maior valor aquisitivo são de pele animal e, durante muito tempo, as pessoas as viram como algo luxuoso, que só aquelas com muito poder tinham”, afirma. 
Muitas grifes, então, acabam inserindo a ideia em suas vestimentas por acreditarem ser passaporte para o sucesso na moda de luxo. De acordo com Isadora, a indústria da moda segue sendo muito glamourizada e “vai sobreviver por um tempo” por ainda possuir um mercado e um público. 
 
A legislação realmente protege os animais? 
 
Não precisamos ir até a Itália para encontrar marcas que fazem uso das peles. A Taia Exotic Leather, empresa que atua no mercado brasileiro, desde 2007, investe na produção de calçados e acessórios feitos de couro exótico.

A justificativa adotada é que o material utilizado é proveniente de atividades legais, certificadas e fiscalizadas pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais (Ibama). Em 2016, na cidade de São Paulo, foi determinada a lei que proíbe a comercialização de artigos de vestuário, mesmo que importados, confeccionados com couro animal criado exclusivamente para extração e utilização da pele. O comércio que descumprir a regra será multado no valor de R$ 5 mil. 

O avanço é, de fato, significativo. Porém, a fiscalização da lei ainda não é 100% eficaz. Nesse sentido, o mercado têxtil e a indústria da moda precisam desenvolver, para além da capital, a ética em oposição à ostentação. 

Thalita Lima, uma das responsáveis pela diretoria da Associação de Proteção aos Animais de Mozarlândia (APAM), acredita que as leis são um começo. “São das pequenas causas que as grandes causas surgem. É a partir daí que teremos outros começos de ações pela causa animal”, afirmou. 
 
Outro fato que também contribuiu para a proibição severa do uso da pele animal, foram os protestos que ocorreram em diversos locais do Brasil e do mundo. A organização People for the Ethical Treatment of Animals (PETA), é responsável por apoiar e ancorar grupos que tecem críticas contra grifes. 
 
Cruella como motivador do debate
Mesmo antes de lançar, o live-action de Cruella gerou polêmica nas redes sociais. Isso porque a protagonista é conhecida por ser fascinada pelas peles de animais. Na primeira animação da franquia 101 Dálmatas, lançada em meados de 1961, a personagem era a vilã rica que só se importava com os filhotes de cachorro, por causa do sonho de consumo que tinha, usar um casaco feito com pele de pequenos dálmatas. 
 
Porém, o novo longa anunciado pela Disney prometeu contar outra história. Ao mesmo tempo que Cruella é retratada como psicopata e maluca, deixam à mostra a versão brilhante e talentosíssima da estilista.  A produtora optou por “humanizá-la” assim como fez com a Malévola, o que, de certa forma, contribui para que ela seja mais “aceita”. Em todo caso, Cruella reacendeu o debate sobre os maus tratos com os animais. 
 
Ao contrário do que muitos pensam, a estilista Jenny Beavam, responsável pelos figurinos chocantes do filme, garante que toda pele usada em Cruella é falsa. Em entrevista para a revista digital Elle, Jenny revelou ser a favor dos direitos dos animais e odiar até peças muito antigas feitas com pele animal.
“Não usamos nenhuma pele de animal. Eu, pessoalmente, sou a favor dos direitos dos animais e odeio até peças muito antigas feitas com pele animal. O padrão de dálmatas, por exemplo, foi impresso em um tecido feito de pele falsa e veludo. Mesmo os figurantes usaram peles falsas", disse a estilista.
Todavia, Isadora Papa comenta que não acha certo banalizar o uso das peles. Na opinião dela, filmes, séries, livros e os conteúdos de entretenimento, principalmente aqueles que dão vida à indústria da moda, devem levantar essa pauta, retratando a verdadeira face das grifes: poderosas o suficiente para destruírem a natureza a bel-prazer. 

O que falta para as alternativas sustentáveis dominarem o mercado?
Dando voz aos ativistas, a London Fashion Week, realizada em 2018, foi a primeira semana de moda do mundo a banir o uso de pele animal. Nem todas as marcas partilham dos mesmo valores, mas, desde a geração Millennial, a conscientização com o meio ambiente subiu ao palanque. 

Por ser uma das indústrias que mais poluem, a moda é perseguida por consumidores mais conscientes e cobrada por alternativas mais ecológicas. Com a tecnologia a favor dos estilistas, é fácil substituir um material legítimo por outro sintético. Porém, algumas grifes ainda alegam complexidade, já que mudaria a linha de produção e afetaria o público que clama por peles.
 
Para Thalita, falta gerar esse interesse por parte das marcas, já que “as pessoas escolhem a pele animal por motivos como a duração. Elas alegam que o couro ‘passa de gerações’”. 
 
O maior discurso para a preferência por peles legítimas se deve ao fato de que as peles sintéticas também não são uma alternativa sustentável. Ao contrário, a produção é feita com derivados de petróleo, o que significa que poluem o meio ambiente, além de não serem biodegradáveis. 
 
Isso não exclui o fato de que as peles animais são insustentáveis e provenientes de crueldade. Para a pele não apodrecer é preciso prepará-la com produtos químicos danosos ao meio ambiente, além do processo de tingimento - cujo consumo de água é exorbitante. 
 
A estilista Stella McCartney apresentou uma possível solução para o fim do uso de pele animal, ao  inovar com o tecido KOBA, feito com pele vegetal e assinado como “Pele livre de pele”. Além disso, ele pode ser reciclado ao fim da vida útil. McCartney sempre se posicionou contra o uso da pele animal. Segundo a BBC News, em uma campanha no site da estilista, ela afirma: "Usar pele de animal é imoral, cruel e bárbaro - é uma indústria que se capitaliza com a morte”.

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