21/06/2021 às 12h05min - Atualizada em 21/06/2021 às 19h10min

Dia do cinema brasileiro: a importância das produções cinematográficas para a identidade do país

Relembre a história do cinema brasileiro e conheça filmes e plataformas de streaming inteiramente nacionais

Leticia Menezes - Revisado por Isabela dos Santos
O cinema brasileiro iniciou seu percurso em 8 de julho de 1896. (Foto: Pixabay)

O 19 de junho de 1898 é marcado pelo dia em que o italiano Afonso Segreto gravou, na Baía de Guanabara, Rio de Janeiro, as primeiras imagens dentro do país. Tornou-se, então, a data comemorativa da instauração do cinema brasileiro. A data que também simboliza a importância das produções cinematográficas para a continuidade da representatividade no Brasil.

No entanto, ainda é evidente a falta de valorização dessas produções, tanto nos investimentos estatais para fomento de projetos, quanto do público, que, infelizmente, ocupa pouco espaço nas salas de cinema. Há, portanto, a necessidade de maior atenção para as obras cinematográficas nacionais, a fim de preservar a história, a cultura e a identidade através da sétima arte brasileira.

Pioneirismo e as raízes do cinema nacional

A trajetória do cinema brasileiro iniciou o percurso em 8 de julho de 1896, quando foi feita a primeira exibição de forma pública dos filmes produzidos e dirigidos no Brasil para a elite do Rio de Janeiro, através do cinematógrafo. Sem som e com a imagem em preto e branco, as produções foram evoluindo conforme o surgimento de novas estruturas. A eletricidade também foi fator das primeiras sessões de cinema não firmarem, mas que foi solucionado no ano de 1907, após a Usina Ribeirão de Lages ser implantada no Rio de Janeiro.

O ano de 1909 foi marcado pelas primeiras exibições de filmes cantados e falados, em São Paulo. Em 1911, o anúncio de filmes estrangeiros obrigou o mercado cinematográfico brasileiro a escolher as exibições de lucros auferidos. Em 1930, foi criado o primeiro grande estúdio cinematográfico no Brasil, nomeado “Cinédia”. E, entre 1930 e 1950, as  “chanchadas” caracterizaram o gênero de filme brasileiro de humor cômico.

O Cinema Novo surgiu com produções de estilo hollywoodiano, período que marcou diversas fases da história do cinema e que passou pela fase da Ditadura Militar. A década de 80 foi marcada pelo declínio do cinema pela chegada da videocassete, do fim da Embrafilme e das leis de incentivo à produção e com a regulamentação do mercado pelo então presidente Fernando Collor. O período de 1992 e 2003 foi conhecido como a fase da Retomada.

Após mais de um século de história, o cenário atual é de tendência de queda no setor cinematográfico. O anuário estatístico do cinema Brasileiro de 2019 da Ancine (Agência Nacional do Cinema) apresentou resultados de bilheteria das salas de cinema do país daquele ano, destacando a participação do público dos filmes brasileiros, que foi de 14,8% para 13,6% comparado a 2018. Essa porcentagem se encontra abaixo dos padrões de países que estão entre as dez maiores economias do mundo - o Brasil está na nona posição - e de mercados mais maduros, como o de países europeus. 

Além disso, no ranking dos 20 títulos com maior público, apenas quatro são brasileiros. Esse resultado reflete na falta de incentivos federais para o investimento em filmes nacionais, que reflete nas salas de cinema do país, que estão sempre ocupadas por mais lançamentos estrangeiros do que brasileiros. 

OLHAR CRÍTICO 

Bruno Carmelo, crítico de cinema e membro da ABRACCINE (Associação Brasileira de Críticos de Cinema), acredita que o cinema brasileiro é muito pouco valorizado dentro do próprio país. “É irônico porque temos filmes excelentes que vão para os maiores festivais do mundo e são muito reconhecidos lá fora, mas que não foram muito vistos aqui dentro”, destaca, lembrando que as salas desocupadas não justificam a insatisfação do público, mas sim, por não haver oportunidades para ver o filme, devido à falta de investimentos em publicidade.

O crítico de cinema ainda lembra da pequena cota de tela para proteger o cinema nacional, que não abre espaço para exibir os filmes brasileiros, e consequentemente, não fornece salas disponíveis. Ele evidencia a urgência de compreensão do governo de que a cultura é necessária, indispensável e um direito da população, além de ser, economicamente, um setor estratégico. Denuncia, também, a falta de apoio e os ataques contra o cinema brasileiro do atual governo.

“Bolsonaro deixa muito claro que é contra os artistas. Já expressou a vontade dele de exercer a censura, de impedir que os filmes sejam feitos e de prejudicar a classe artística. Então, toda essa conjuntura torna muito difícil para que os filmes sejam realmente vistos pelo público.”

Bruno reforça que deve haver instrumentos legais e governamentais de instituição do cinema brasileiro como parte da cultura nacional - como programas que permitam ingressos mais baratos e garantam a exibição de filmes brasileiros; que fomentem a produção de curta-metragem, estimulando os projetos de novos diretores; que invistam em escolas e faculdades de cinema, para ter retorno em obras mais diversas e que sejam vistas por mais pessoas através de outros canais - tendo, portanto, uma nova perspectiva desde a parte da produção até a exibição e a distribuição.

A era do streaming

Com o avanço do streaming - principalmente após o início da pandemia, que acentuou a criação e as assinaturas de plataformas -, muitas produções cinematográficas nacionais vêm sendo adicionadas nas coleções, como na Netflix, na Amazon Prime Video e na TeleCine Play. Empresas populares também têm trabalhado essa representatividade nacional, com destaque para a GloboPlay, que disponibilizou recentemente 50 títulos no catálogo e o Itaú Cultural, que, em homenagem ao dia do cinema brasileiro, irá inaugurar uma plataforma gratuita de streaming com produções totalmente nacionais.

No entanto, apesar desse avanço, ainda há poucas plataformas de streaming que dedicam todo o seu catálogo para filmes nacionais. Conheça algumas delas que são focadas em produções brasileiras:

SPCine Play

A plataforma SPCine Play é pública e gratuita, com todas as produções brasileiras. Contém filmes de festivais de São Paulo e também conteúdos da programação cultural da cidade. A plataforma pertence à Spcine, empresa paulista que promove o desenvolvimento da indústria cinematográfica paulistana. “É a única focada inteiramente em filme brasileiro novo e clássico, tem grandes filmes da história do cinema brasileiro, lindos, raros e difíceis de encontrar, e estão lá com boa qualidade. É impressionante o trabalho que a Spcine Play faz”, destaca Bruno.

 

Cardume TV

Portal que abriga filmes e curta-metragens inteiramente nacionais, a Cardume visa fomentar e internacionalizar o audiovisual independente brasileiro. Com o investimento mensal de R$ 5 por mês, o catálogo conta com mais de 100 filmes disponíveis aos assinantes, que também contribuem para auxiliar as produções independentes. Além disso, a plataforma já realizou premiação para curtas-metragens, sessões de debates sobre cinema, cursos gratuitos para produtores audiovisuais, entre outras iniciativas. 

Tamanduá TV

A Tamanduá TV reúne produções nacionais, mas também abriga filmes europeus. Com foco na cultura, a plataforma de filmes sob demanda é focada em conteúdos independentes nos planos de assinatura. Nessa semana do cinema brasileiro, a Tamanduá selecionou documentários e séries que marcaram os bastidores do cinema nacional, além de biografias de grandes nomes do audiovisual brasileiro. As produções ficarão disponíveis gratuitamente até o dia 26 de julho e podem ser acessadas no site.

Afroflix 

A Afroflix é uma plataforma colaborativa que recebe indicações e disponibiliza conteúdos audiovisuais, mas com a condição de haver pelo menos uma pessoa negra atuando na produção. Plataforma aberta e gratuita, ela contém um acervo diversificado de obras totalmente brasileiras, mas também abre espaço para inscrições de outros países. Para inscrever ou indicar produções, é necessário preencher o formulário que está disponível na plataforma.

Filme Filme 

Filme Filme, a “plataforma de cinema fora do óbvio”, segundo o slogan do site, engloba produções destinadas a quem busca conteúdos diferentes dos encontrados nas plataformas tradicionais de streaming. O catálogo é dividido em longas de ficção, documentários e curtas, todos selecionados pela curadoria. O plano mensal tem o valor de R$7,50, mas também libera filmes gratuitos - dentre eles, muitos nacionais.

Filmes que todo brasileiro deveria assistir

Nos últimos anos, muitas produções cinematográficas brasileiras foram lançadas e premiadas, mas não conseguiram tanto espaço de exibição no mercado nacional. Confira cinco filmes nacionais lançados recentemente que merecem reconhecimento:

Arábia (2017)

O filme conta a história do jovem André, que encontra em Ouro Preto, Minas Gerais, o diário do trabalhador Cristiano, que sofreu um acidente. A história provoca reflexões sobre as questões sociais e políticas brasileiras da última década. Dirigido por João Dumans e Affonso Uchoa, o longa-metragem foi escolhido como Melhor Filme, Melhor Ator, Melhor Trilha e Melhor Montagem no 50º Festival de Brasília, além de marcar presença em diversos prêmios e festivais. Está disponível na NOW e na Vivo Play.

Café com Canela (2017)

Sinopse: após perder o filho, Margarida vive isolada da sociedade. Ela se separa do marido Paulo e perde o contato com os amigos e pessoas próximas, até Violeta bater na sua porta. Trata-se de uma ex-aluna de Margarida, que assume a missão de devolver um pouco de luz àquela pessoa que havia sido importante para ela na juventude.

Dirigido por Glenda Nicácio e Ary Rosa, Café com Canela é o primeiro longa nacional de ficção com uma mulher negra na direção desde 1984. No elenco, destaca-se Babu Santana com a interpretação de homem homossexual. Foi exibido na abertura da 21ª Mostra de Cinema de Tiradentes e escolhido pelo júri popular como melhor longa no 50º Festival de Brasília. Disponível na Amazon Prime Video, NOW e Vivo Play.

Temporada (2018) 

O filme conta a história de Juliana, que se mudou para a periferia de Contagem, Belo Horizonte, para um trabalho de combate a endemias, e espera seu marido chegar também na cidade para morarem juntos. Foi vencedor do 51º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro - dentre os cinco troféus Candangos recebidos, conquistou o de melhor longa-metragem. O longa mineiro tem direção e roteiro de André Novais Oliveira. “Considero um dos melhores - senão o melhor - diretor que temos em atividade no Brasil. O cinema que ele faz é de um humanismo lindo”, destaca Bruno. Disponível na Netflix.

Bixa Travesty (2019)

Filme de Claudia Priscilla e Kiko Goifman, aborda a história da cantora negra e transexual Linn da Quebrada. O documentário destaca a temática LGBTQIA e reflete sobre as questões de estereótipo de gênero e de raça. Dentre os prêmios, conquistou o Teddy Award de melhor documentário no Festival de Berlim, de melhor longa do júri popular e melhor trilha sonora no Festival de Brasília e de melhor direção no Festival de Cartagena. Disponível na Apple TV, NOW e Vivo Play.

Tinta bruta (2018)

O filme narra a história de Pedro, um jovem homossexual que fez uso da dança e da tinta neon para ganhar dinheiro na internet e revelar sua real personalidade, além de perpassar situações pessoais, familiares e até criminais. Os diretores e roteiristas são Filipe Matzembacher e Márcio Reolon. É considerada produção de baixo orçamento e conquistou o prêmio Teddy de melhor ficção, recebeu o prêmio da Confederação Internacional de Cinema de Arte e Ensaio (CICAE) no Festival de Berlim, troféus de melhor filme, roteiro, ator e ator coadjuvante no Festival do Rio, entre outros reconhecimentos. Disponível na Telecine Play.

“O cinema brasileiro tem responsabilidade ética e moral de representar a sociedade na qual ele se insere. Não dá só para representar histórias de pessoas brancas e ricas no Leblon, tiroteios na favela - isso também precisa ter lugar, mas a cultura de um país é feita em parte através de incentivos públicos, mas não só, é feita com encorajamento do Estado para o público, então tem que refletir a população. Tem que ter histórias sobre pessoas negras, LGBT, deficientes, porque fazem parte da sociedade e merecem ser vistas na tela. - Bruno Carmelo, crítico de cinema e membro da ABRACCINE.


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