29/06/2021 às 16h03min - Atualizada em 29/06/2021 às 15h12min

Venda de medicamentos do “kit covid” cresce 174% no primeiro ano de pandemia

A venda mais expressiva foi da ivermectina, a qual teve um aumento de aproximadamente 612%

Meire Santos - Editado por Marceli Maria
Dados apresentados pelo presidente da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), Antônio Barra Torres, à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Covid-19 apontam que, entre 2019 e 2020, houve crescimento de aproximadamente 174% nas vendas dos medicamentos que integram o “kit covid”. No período de um ano, o número de embalagens vendidas subiu de 46 para 126 milhões.

Ao todo, cinco medicamentos compõem o “kit”: ivermectina, azitromicina, cloroquina, hidroxicloroquina e nitazoxanida. Nenhum deles têm eficácia cientifica comprovada contra o novo coronavírus, no entanto, foram amplamente divulgados por autoridades políticas e alguns médicos como eficazes no tratamento precoce da doença.

A alta de vendas mais expressiva foi a da ivermectina, que de 8 milhões saltou para 57 milhões, um aumento de aproximadamente 612%. Sem relação com a Covid-19, o remédio serve para tratar infecções causadas por parasitas, como piolhos, lombrigas e sarnas.

A azitromicina, antibiótico usado para o tratamento de doenças respiratórias, como bronquite e pneumonia, foi a segunda mais comercializada, com um crescimento de 107%, ela subiu de 28 para 58 milhões de embalagens vendidas.

A cloroquina e hidroxicloroquina, usadas para tratar doenças como lúpus e malária, subiram de 1,5 milhões de embalagens vendidas para 2,3 milhões (53%).

Com um crescimento um pouco abaixo dos demais, a nitazoxanida subiu de 8,5 para 9,2 milhões (8%) de vendas. O medicamento é um antiparasitário que serve para combater infecções virais caudas por rotavírus, parasitas e protozoários.   

INFLUÊNCIA DO GOVERNO FEDERAL

Esses medicamentos ganharam destaque, sobretudo, pelo apoio do governo federal. A cloroquina é o que tem maior visibilidade, pois já foi mencionada inúmeras vezes pelo presidente Jair Bolsonaro como um remédio eficaz no tratamento da Covid-19. Bolsonaro, inclusive, chegou a afirmar que usou o medicamento para se curar quando contraiu a doença, em julho de 2020.

Em janeiro deste ano, o Ministério da Saúde lançou um aplicativo que incentivava o uso de remédios sem eficácia comprovada no tratamento da Covid-19. O aplicativo, chamado de “TrateCov”, era voltado para profissionais da saúde e ficou uma semana no ar.

Para infectologista e curador do HubCovid, André Giglio Bueno, a postura do governo federal em incentivar o uso desses medicamentos como algo realmente eficaz é um dos maiores influenciadores no aumento das buscas por eles.

“Obviamente é mais atrativo falar que existe um certo tipo de tratamento que é barato e facilmente acessível do que seguir com rigor as medidas de prevenção. É um discurso, com certeza, muito mais sedutor. Acredito que muitas pessoas sigam buscando esses medicamentos por questões políticas, para seguir alinhado à narrativa adotada pelo governo federal desde o início da pandemia”, pontua.


O infectologista ainda explica que a promoção desses medicamentos como eficazes no tratamento da doença pode gerar riscos graves ao paciente, como eventos adversos provocados pela interação medicamentosa e o aumento das infecções, já que eles transmitem uma falsa sensação de segurança.

“Só pelo fato de veicularem a desinformação de que existe uma alternativa terapêutica, pode acontecer das pessoas se exporem mais, imaginando que existiria um tratamento facilmente acessível, e com isso aumenta o risco de infecções e, infelizmente, quando precisar mesmo, não terá um tratamento que de fato funcione”, comenta.


Essa falsa sensação de segurança é um dos motivos citados pelo ex-ministro da saúde Luiz Henrique Mandetta, em seu livro, como um dos objetivos do presidente Jair Bolsonaro ao indicar os medicamentos. “Nunca na cabeça dele (Bolsonaro) houve a preocupação de propor a cloroquina como um caminho de saúde. A preocupação dele era sempre 'vamos dar esse remédio porque com essa caixinha de cloroquina na mão os trabalhadores voltarão à ativa, voltarão a produzir'”, diz o trecho. 

POSTURA DO CFM

No ano passado, o Conselho Federal de Medicina (CFM) aprovou um parecer que permitiu que médicos prescrevessem cloroquina e hidroxicloroquina para pacientes com sintomas leves, moderados e graves da Covid-19. A instituição, no entanto, diz ser contra o uso do medicamento. Para ela, a autorização é apenas uma forma de garantir a autonomia de médicos e pacientes em fazerem uso ou não dos medicamentos.

Para Bueno, a autorização é equivocada, pois os médicos não podem prescrever medicamentos que não tenham comprovação científica.

“O problema é que tem uma desvirtuação dessa ‘autorização’, porque apesar do médico ter autonomia para fazer o que ele quiser, obviamente, ele precisa seguir boas práticas científicas, isso, inclusive, está no código de ética médica, e a rigor, o médico não deveria divulgar tratamentos ou medicações que não tivessem uma ampla validação científica. Muitas pessoas que seguem prescrevendo esses medicamentos se apoiam nesse parecer, mas isso é algo vazio, porque divulgando ou prescrevendo certos tipos de medicamento, a pessoa está indo contra outros itens do código de ética médica”, explica.


O infectologista acrescenta que grande parte dos médicos que prescrevem essas medicações são por conta do alinhamento político ou pelo baixo conhecimento de medicina baseada em evidência. Nesse último caso, o desconhecimento faz com que o médico pegue “um dado primário, as vezes de um estudo in vitro, e ache que aquilo é suficiente para fazer uso da medicação na prática”.

RANCHO QUEIMADO

Em meio à CPI da Covid-19, algumas autoridades, como o senador Luis Carlos Heinze (PP-RS), apresentaram a cidade de Rancho Queimado (SC) como sucesso no tratamento precoce com o “kit covid”. No município de aproximadamente 2.800 habitantes, mais de 1500 pessoas fizeram uso de medicamentos inclusos no “kit”. A iniciativa, que contou com o apoio da prefeitura e líderes comunitários, gerou um gasto de R$ 47 mil para os cofres do município.

Apesar da tentativa, dados da Secretaria Estadual de Saúde de Santa Catarina mostraram que não houve resultados vantajosos. O avanço da doença na cidade foi semelhante ao de municípios vizinhos. Rancho Queimado registrou dois óbitos pela doença, o número é igual ao da cidade vizinha Leoberto Leal, que tem a mesma quantidade de habitantes e não testou o “kit covid”. Outra cidade próxima, Angelina, não usou os medicamentos e registrou apenas um óbito entre os seus quase 4,7 mil habitantes.
 

 
*André Giglio Bueno é médico infectologista, curador do HubCovid, professor da Disciplina de Infectologia da Faculdade de Medicina da PUC/Campinas, titular do Hospital e Maternidade Celso Pierro e coordenador da Comissão de Controle de Infecção Hospitalar da Santa Casa de Vinhedo.
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