17/12/2021 às 09h26min - Atualizada em 17/12/2021 às 09h22min

Papai Noel e o Monstro Krampus: personagens do mês de dezembro

Crianças bem-comportadas ganham presentes do Papai Noel e os que agiram mal são levados pelo monstro Krampus

Ianna Oliveira Ardisson - Editado por Larissa Bispo
Fonte/Reprodução: Google
No início de dezembro, dia 6, comemora-se o dia de São Nicolau de Bari. Esse bispo, devido às suas obras de caridade e proximidade com as crianças, foi a inspiração para o mito do Papai Noel. Ele nasceu no ano de 275 na cidade de Pátara, na Ásia Menor, atual Turquia. Vindo de uma família rica, dedicou-se a ajudar aos pobres. Assim, quando recebeu sua herança paterna, a utilizou para amparar aos mais necessitados. Ele costumava dizer que “seria um pecado não repartir muito, sendo que Deus nos dá tanto”.  
 
Existem muitas lendas relacionadas a São Nicolau. Em uma delas conta-se que uma família muito pobre, que não tinha como pagar o dote das filhas, recebeu um saco de moedas de ouro e prata. Dizem que Nicolau teria jogado o saco de moedas pela janela da casa deles, à noite, para ajudá-los. Há também histórias sobre aparições dele. No Natal de 1583, teria aparecido na Espanha em resposta às orações de algumas senhoras que teriam pedido para nenhum pobre deixar de receber o pão bento naquele terrível inverno. Ao serem questionados, os carentes que receberam esse auxílio, disseram ter ganhado o alimento de um senhor de feições serenas e mãos firmes.
 
Segundo lendas de alguns países, existe um monstro que acompanha o Papai Noel e pune as crianças que se comportaram mal durante o ano. Krampus seria um ser assustador: com chifres, ele aparece para amedrontar e castigar as crianças. Dizem que surge com chicotes para bater nos pequenos e com um cesto, ou um saco, para levá-los embora. As crianças seriam levadas a um lugar terrível e permaneceriam lá por um ano. Na Áustria, onde a lenda é muito conhecida, existe uma festa: a noite de Krampus, no início de dezembro. As pessoas levam correntes e sinos para fazer barulho, que seria a maneira que o monstro anunciava sua chegada, e saem, então, fantasiadas pelas ruas assustando crianças e adultos. Diz a lenda que a aparição do monstro se dá sempre próximo ao Natal de cada ano.
 
Vemos no mostro Krampus como a punição possui uma grande força na intenção de moldar bons comportamentos. O medo leva, muitas vezes, as crianças a se comportarem bem. Afinal, ninguém quer ser levado por um monstro para um lugar terrível. O medo como estratégia educativa é frequentemente usado em nossa sociedade. O monstro Krampus não é comum na nossa cultura, entretanto observa-se a utilização de outras figuras para amedrontar as crianças e coagi-las a um bom comportamento.

A psicóloga Daniela de Alcântara Almeida Santos traz algumas considerações sobre o medo como estratégia educacional e nos ajuda a entender como esse costume de assustar as crianças interfere na formação psíquica delas. Ela aponta que:

“Em primeiro lugar, a formação psíquica saudável é feita principalmente por aprender a tomar decisões e não fugir do que se tem medo. Saber escolher é essencial. E isso não pode ser feito pelo medo somente. Como o medo é uma emoção, ele não possibilita uma reflexão.”

A psicóloga esclarece ainda a função do medo de nos proteger de grandes riscos. O medo tem, portanto, na aprendizagem, um papel de autopreservação. Ela explica que uma criança que não sabe nadar e não tem medo de entrar na piscina corre o risco de se afogar e isso é perigoso. "Assim, ter medo de algum risco real, nos ensina autoproteção”, pondera.

Daniela alerta que o medo como ameaça é prejudicial no desenvolvimento emocional das crianças:

“Porém, quando ele é usado como ameaça, é prejudicial no desenvolvimento emocional. A neurociência nos mostra que o medo é uma emoção e, como tal, funciona para fazer nosso corpo reagir. Funciona da seguinte forma: o meu cérebro recebe uma informação do meio ambiente e, a partir dos sentidos, faz uma leitura bem rápida da situação e reage fisiologicamente. Nesse sentido, não há tempo para a análise da situação. O corpo apenas reage.”

Sobre o monstro Krampus, e tantos outros usados para assustar as crianças, percebe-se que causam apenas uma reação das crianças e não uma aprendizagem de um comportamento que as possibilite fazer boas escolhas. “O ideal, para uma formação psíquica saudável das crianças, é que elas aprendam a analisar os riscos e tomar decisões. Personagens como o monstro Krampus não ensinam nem o sentido das coisas nem o valor do esforço. Elas passam a se 'comportarem bem' apenas como uma reação. O medo não proporciona o tempo de reflexão, tão importante para aprender a decidir e escolher entre o certo e o errado. Vai funcionar momentaneamente porque provoca uma reação. Mas não haverá aprendizagem de bons hábitos porque o medo não produz reflexão e mudança permanente de comportamento”, explica Daniela.
 
É interessante notar que os aprendizados da infância nos acompanham na vida adulta.  Em algumas situações vemos pessoas se “comportando bem” por causa do medo de punição. A psicóloga comenta sobre isso:
 
“Esse padrão de reação pode nos acompanhar na vida adulta, por exemplo, quando fazemos as coisas certas para receber reconhecimento ou sermos aceitos por quem amamos. Muitos de nós já deixamos de fazer algumas coisas por medo da reação de alguém e não porque refletimos e decidimos que essa decisão pode ser prejudicial para nós ou para outras pessoas. As decisões tomadas com base no medo são apenas reativas. Elas não têm consistência, muito menos constância. Na primeira oportunidade que o 'fator ameaçador' não estiver presente, os princípios e valores que nos ajudam a tomar decisões saudáveis serão deixados de lado porque a recompensa será imediata.”
Essas figuras presentes nas histórias que nos contam deixam marcas em nossa formação. Então, ao olhar para esses personagens de dezembro, que possamos perceber como têm influenciado nossa vida ao longo dos anos. A figura de Krampus vem nos alertar a não ter o medo e ameaças como estratégia educacional. É importante perceber que nossas escolhas terão consequências, mas não é pelo medo da punição que devemos nos pautar. Já a trajetória e ações de São Nicolau, que inspirou o tão famoso Papai Noel, nos traz uma inspiração pelo exemplo de vida. Assim como Nicolau possamos compartilhar com os que precisam de ajuda e, não somente no Natal, enxergar os necessitados que nos rodeiam.
 

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