04/10/2019 às 19h35min - Atualizada em 04/10/2019 às 19h35min

A inclusão na universidade

“Quero atender outros surdos”, diz primeiro aluno surdo do curso de Medicina da UFG

Mariana Jardim - Editado por Luiz Serenini
Imagem: Divulgação/Arquivo Pessoal
A educação é um direito básico garantido pelo estado. No entanto, apenas 21% da população tem acesso à graduação, segundo estudo feito pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Mesmo sendo um direito firmado pela Constituição Federal, ainda assim ela é restrita. No ano de 2003, por exemplo, foi editada a Portaria 3.284 MEC/GM, dispondo sobre a responsabilidade das universidades públicas e privadas de assegurar condições básicas de acesso e permanência aos alunos com deficiências físicas e sensoriais em suas instalações. Gilson Batista é o primeiro surdo a ingressar no curso de Medicina da Universidade Federal de Goiás (UFG). Devido à contração de uma meningite aos 2 anos de idade, ele perdeu completamente a audição, mas conta que é oralizado graças ao fato de que dos 5 aos 18 anos fez Fonoterapia na Pontifícia Universidade Católica de Goiás - PUC-GO.

Apesar de ter apenas 22 anos, Gilson Batista é formado em Ciência da Computação, e agora encara o desafio de cursar o tão sonhado curso de Medicina. “Escolhi a Medicina por achar uma área muito interessante, e apesar de terem poucos médicos com o básico de Libras”, diz. Seu sonho é atender outros surdos que dependem de intérpretes e de outras pessoas para o atendimento. Segundo o censo do IBGE de 2010, há aproximadamente 10 milhões de pessoas com alguma deficiência auditiva, o que corresponde a 5% da população do Brasil. Em todo o mundo, são por volta de 360 milhões de pessoas que sofrem com algum tipo de surdez. De acordo com o Decreto 5.626, “as instituições federais de ensino devem garantir obrigatoriamente às pessoas surdas o acesso à comunicação, à informação e à educação nos processos seletivos”.

Dados do MEC relativos ao censo 2009 a respeito da inclusão de alunos com deficiência no Ensino Superior apontam que naquele ano foram matriculados 20.019 alunos, o que corresponde a 34% do total. Entre estes, 22% são portadores de deficiência auditiva, 9% são os denominados com surdez e 1% com surdo-cegueira. Esses dados mostram um total de 32% de pessoas com surdez matriculados no Ensino Superior. Gilson Batista é, portanto, um dos 22% privilegiados incluídos na graduação. Por isso mesmo, diz que se sente o feliz por representar a comunidade surda onde muitas vezes são excluídos. “É importante os surdos estarem incluídos pois, infelizmente, há barreiras na comunicação, pois nem todas as pessoas sabem Libras para poderem se comunicar com o surdo e, assim, acabam excluindo-o, e vale lembrar que a comunidade surda também tem os mesmos direitos que os ouvintes”, diz Gilson referindo-se à inclusão.

E quanto às limitações frente ao novo curso? Gilson conta que não encontrou dificuldades, pois tem um intérprete de Libras. Para ele, “a estrutura da Universidade é ótima, bons professores, bastante didáticos, tiro muitas dúvidas com eles e eles ajudam”. Além de conseguir se comunicar com os professores, Gilson Batista também não encontrou barreiras para se comunicar com seus colegas, já que “barreira não há, pois me comunico com meus colegas em Libras e também sou oralizado”. 

De toda forma, é importante ressaltar que, no Brasil, a Língua Brasileira de Sinais (Libras) é reconhecida como segunda língua oficial do país. E que um aplicativo chamado Hand Talk pode ser usado pelo computador ou no smartphone como ajuda na hora de aprender sinais em Libras para se comunicar com algum surdo.
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