30/06/2020 às 12h05min - Atualizada em 30/06/2020 às 11h12min

Abaixo aos monumentos racistas: a reação do mundo e Brasil diante do lado obscuro da História

Questionamentos sobre a queda de parte do patrimônio histórico mundial apenas começaram

Lays Bento - Editado por Camilla Soares
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 A morte de um cidadão afro-americano na cidade de Minneapolis, ao Norte dos Estados Unidos, certamente ganhou proporções inesperadas desde o final de maio. Tanto que, hoje, George Floyd não só é reconhecido por tocar na ferida nunca cicatrizada da segregação racial na terra do “Tio Sam”, mas por também ser o precursor de movimentos como o revisionismo histórico em monumentos espalhados por todo o globo.


















A estátua do filantropo da cidade, contudo, também traficante de escravos do século XXVII Edward Colston foi erguida em 1895 e foi uma das primeiras a rolar (no caso, Rio Avon abaixo) durante os protestos contra a morte de George Floyd em Bristol, na Inglaterra. Em breve, seu destino será um museu.


Em nota  traduzida ao português, o próprio International Slavery Museum, localizado em Liverpool, na Inglaterra, diz que “é importante notar que [ao derrubar a estátua de Edward Colston] não se está apagando a História, mas sim fazendo História” e comenta a importância que é “as pessoas verem a realidade do crescimento do Império Britânico e do Imperialismo”. 

Para o professor da Universidade do Estado de Santa Catarina e historiador, Paulino Cardoso, monumentos são produções culturais que procuram educar a população em torno de uma memória, em especial àquelas associadas aos mitos fundadores de um determinado país ou região. “Representam um projeto hegemônico, logo, mudando a correlação de forças a tendência que mereçam realocamento, quem sabe devam ir a um museu onde possam ser  contextualizadas historicamente”, sugere.













Os fatos, inclusive, parafraseiam o pensamento do filósofo e sociólogo alemão Walter Benjamin de que “nunca houve um monumento da cultura que não fosse também um monumento da barbárie”. Tanto é que a lista de monumentos se estende e já apresentou diversos alvos de depredação pública como:
  • Remoção autorizada da estátua de Theodore Roosevelt, em frente ao Museu de História Natural de Nova Iorque, EUA;
  • Pedido de remoção da estátua de John Wayne, na Califórnia, EUA;
  • Manchas sobre o monumento de Jean-Baptiste Colbert, em Paris;
  • Remoção da figura de Cristovão Colombo, em Nova Jersey, EUA;
  • Pichação com a palavra “racista” sob a estátua de missionário Junípero Serra, na Espanha;
  • Tentativa de sucumbe da estátua do ex-presidente dos EUA, Andrew Jackson, em Washington.

Vale ressaltar que, até a data da presente publicação, entre os mais recentes marcos estão a queda de mais uma estátua de Cristovão Colombo, dessa vez em Baltimore, e o anúncio oficial do estado sulista nos Estados Unidos da América, o Mississippi, deste domingo (28) referente a retirada do símbolo confederado de sua bandeira. Em contrapartida, segundo informações divulgadas no dia 29 pela Casa Branca, 100 pessoas já foram detidas no país por vandalizarem estátuas em protestos antirracistas desde então.

Em seu discurso no dia da Indepedência dos Estados Unidos, 4 de julho, Trump comentou os episódios. "Nós estamos agora no processo de derrota da esquerda radical, dos anarquistas, dos agitadores, dos saqueadores. Nós nunca permitiremos que uma mobilização furiosa derrube nossas estátuas, apague nossa história e doutrine nossas crianças".







Símbolo da Guerra Civil Americana revelava divergências quanto à abolição da escravatura – com origens em 1861, mas conflitos ainda pertinentes.


Enquanto isso, no Brasil, levantes para a derrubada de monumentos que naturalizem a exploração de índios e negros, bem como o revisionismo de nome de ruas, ganham força nas redes sociais e em petições. O monumento à Borba Gatos, em Santo Amaro, SP, por exemplo, recebeu destaque nas últimas semanas.














Juiz, mas acima disso, bandeirante. Assim como Raposo Tavares e Fernão Dias Paes, Manuel Borba Gatos também é marcado pela caça e escravização de indígenas em território nacional.


A balbúrdia atraiu a atenção até mesmo de Laurentino Gomes, jornalista e escritor brasileiro reconhecido sobre suas abordagens à respeito da escravidão. Em seu Twitter, no entanto, o autor defende a permanência do monumento: “Com dez metros de altura e vinte toneladas de peso, a atual estátua de Borba Gato no bairro de Santo Amaro, em São Paulo, é feia que dói. Ainda assim, deve lá ficar. Mas passar por ela as pessoas devem saber quem foi o personagem e como foi parar no panteão de heróis nacionais”, afirma ao se referir a não delação das recém-descobertas de pepitas de ouro à concorrentes do Estado por parte de Borba Gatos na época.

Para Paulino a contestação desse cenário é ainda maior: “infelizmente, ao longo do nosso período republicano, o Brasil não fez um enfrentamento do seus males de origem: o colonialismo, escravidão e o latifúndio! Sem o enfrentamento do Colonialismo e seu filho dileto, a branquitude, esta memória racista não será questionada. São Paulo, Florianópolis, se orgulham de serem fundadas por genocidas”.

Contudo, por sua vez, o profissional de História acredita que o único caminho possível no conflito que permeia a atualidade, em diversos países, é o debate democrático sobre a memória: “Ou seja, não existe uma única narrativa histórica, mas múltiplas. Espero que esta multiplicidade de narrativas seja celebrada e contextualizada de modo que venha valorizar o que nos singulariza no mundo, nossa profunda e dolorosa diversidade humana”. 



Mas e para você, daqui para frente, o que a História deverá nos reservar? Sua opinião é bem-vinda nos comentários!

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