16/10/2020 às 18h32min - Atualizada em 16/10/2020 às 18h28min

O poder terapêutico da literatura

Tratamento à base de livros ajuda na saúde mental

Aila Beatriz da Silva Inete - Editado por Bruna Araújo
Foto: Freepik por jcomp, disponível em: https://br.freepik.com/fotos-gratis/reserve-na-biblioteca-com-livro-aberto_3737798.htm
Imagina sair do consultório com uma receita indicando uma dose de Fernando Pessoa durante o dia, duas de Carlos Drummond Andrade à noite e quantas dose quiser de Clarice Lispector. Gostou? Pois é, essa receita pode fazer parte da biblioterapia, que nada mais é do que indicar livros e a leitura deles para o tratamento de doenças nervosas ou afins.

Além de nos divertir, entreter, fazer chorar (nem sempre de tristeza), nos informar, dentre outros, a literatura ajuda a controlar os nossos sentimentos e é um grande remédio terapêutico. A psicóloga Josy Marinho explica que “no momento em que começamos a ler nos desligamos de contextos externos, já que nesses momentos nossa atenção se volta para a leitura, e conseguimos relaxar os músculos, aliviar tensões, desacelerar e acalmar os pensamentos e é como se estivéssemos fazendo uma meditação focada e até nossa respiração se torna mais suave”.

Segundo ela, não importa qual o assunto o livro trata, ao escolher um livro a pessoa irá ter todo seu foco na história e é como se fizesse parte, vai passar por uma experiência única, tendo emoções, sensações e imagens diversas despertadas por aquela trama. Gabriel Jucá, cearense de 23 anos, estudante de agronomia e escritor de contos e poesias, me conta que para relaxar, além de escrever e usar as redes sociais, ele adora ler. “Eu gosto de pegar o kindle e ler o dia inteiro, é libertador”, relata o escritor.

Gabriel explica que se aproximou da leitura já no ensino médio, quando conheceu a literatura de cordel, que foi muito importante para ele, pois trouxe elementos da sua cultura. “Hoje a leitura e a literatura fazem parte da minha vida. Não consigo me imaginar sem literatura. Ela está em tudo o que eu faço, desde a parte profissional até a parte de lazer, para entrar em outros mundos, conhecer e estudar: eu acho isso muito importante”.

Josy Marinho argumenta que a leitura se torna uma pausa nas tensões do dia a dia. ”É saudável e prazerosa, diminuindo os níveis de cortisol (hormônio do estresse) e a ansiedade, e eu costumo comprar livros não apenas para minha leitura, mas empresto aos meus clientes para que também experimentem o benefício de uma boa literatura”, revela a psicóloga.

Midian Damazio de 23 anos, estudante do 3° semestre do curso técnico em alimento, diz que costuma tirar um tempo pra fazer coisas que gosta, como: ler, ouvir música, caminhar e correr. “A literatura me faz permanecer viva, literalmente. Ajuda a ter um olhar diferente diante das coisas, além de me inspirar a ser melhor e a sonhar sempre um pouco mais alto”, conta Midian.

No Reino Unido, a biblioterapia é adotada pelo seu Serviço Nacional de Saúde desde 2013. O Books on Prescription (Prescrição de Livros, tradução livre), o programa objetiva a substituição de antidepressivos por livros em pacientes com quadro leve ou moderado. Em época de pandemia, os livros podem ser um refúgio... Um bom livro nos faz viajar para outros mundos, conhecer novas culturas, dar muita risada e nos dar alento também. “Amo tanto a sensações que a leitura pode causar no leitor e o tanto que ela me faz sentir viva”, declara Midian Damazio.

Para Gabriel Jucá, a quarentena foi bem complicado. Por ser uma pessoa muito comunicativa, ficar “preso” dentro de casa foi muito difícil. Segundo ele, a falta de contato, de presença “é muito nociva”, e com a ansiedade “as coisas batem mais forte”. E foi no mundo dos livros que Gabriel encontrou equilíbrio. "Eu li bastante e isso me deixou mais centrado, me ajudou a não surtar”, declara. “A leitura é um dos melhores exercícios para manter o cérebro e as capacidades mentais em forma”, afirma a psicóloga Josy Marinho.

Ela ainda conta que além de ajudar na escrita, na fala, relacionamento intra e interpessoal, também promove um movimento intenso cerebral, processos mentais, entre os quais se destacam a percepção, a memória e o raciocínio. “Quando lemos, ativamos, principalmente, o hemisfério esquerdo do cérebro, que é o da linguagem e o mais dotado de capacidades analíticas na maioria das pessoas, mas são muitas outras áreas do cérebro de ambos os hemisférios que são ativadas e intervêm no processo”, revela. Midiam Damazio compara a leitura ao ar que respira: “Não posso viver sem”.

Gabriel se sente alimentado e concorda que todos nós precisamos do “preenchimento que o livro trás”. E não importa o gênero e formato, a leitura nos acalma e nos faz exercitar várias funções do cérebro e do corpo. Josy Marinho esclarece que as narrativas e os conteúdos sentimentais do texto, seja ele ficcional ou não, ativam a amígdala e outras áreas emocionais do cérebro. “O raciocínio sobre o conteúdo e a semântica do que foi lido ativa o córtex pré-frontal e a memória de trabalho, que é a que usamos para resolver problemas, planejar o futuro e tomar decisões. Está provado que a ativação regular dessa parte do cérebro desenvolve não apenas a capacidade de raciocinar, como também, em certa medida, a inteligência das pessoas”, conta a psicóloga .

A literatura é algo necessário para Gabriel Jucá. Ele acredita que todo mundo deveria ter acesso à literatura. Ele ainda ressalta que nunca é tarde para começar. “Eu acho muito importante as pessoas buscarem literaturas regionais, não somente, é claro. Mas eu acho que quando você procura literatura regional você tem uma carga de cultura muito grande, você passa amar a sua cultura que muita das vezes você não conhece”, conclui o estudante.

Bom, se você ainda não é um leitor assíduos e quer começar a ler, lembre-se, a Dra. Josy Marinho esclarece que não existe um único jeito certo de ler, existe o que é mais adequado para quem está lendo. “A escolha do gênero e título também são pessoais. Mas, o ideal seria ler algo que a pessoa goste ou se identifique ou até mesmo tenha curiosidade a respeito para que as sensações de satisfação, bem-estar e relaxamento possam estar presentes no momento da leitura”, finaliza Josy Marinho.

Referências

BERNARDO, André. Tratamento à base de livros. Veja Saúde. 5, agosto, 2019. Bem-Estar. Disponivel em: https://saude.abril.com.br/blog/saude-e-pop/tratamento-a-base-de-livros/. Acesso em: 15, outubro, 2020.
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