30/10/2020 às 16h59min - Atualizada em 30/10/2020 às 16h44min

Obrigatoriedade da vacina começa a ser discutida antes mesmo de sua chegada

Movimentos antivacinação distribuem Fake News diariamente em redes sociais com o intuito de diminuir a sua aceitação pela população

Ana Paula Cardoso - Editado por Caroline Gonçalves
Foto: Skaman306 / Divulgação: Getty Images
Segundo pesquisa realizada pelo Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística (Ibope), 75% dos brasileiros tomarão a vacina com certeza, 20% afirmaram que talvez tomem e 5% relataram que não receberão o imunizante de jeito nenhum, indicando uma recusa ou incerteza sobre a vacina com um total de 25%, encontrando resistência entre um a cada quatro brasileiros.

O maior índice de hesitantes se encontra na faixa etária dos 25 aos 34 anos (34%) e entre evangélicos (36%). As razões citadas para a rejeição foram diversas. Entre elas, dúvidas quanto à segurança e eficácia e teorias da conspiração.

Os movimentos antivacina exercem uma grande influência sobre a população, criando intermináveis teorias da conspiração compartilhadas diariamente nas redes sociais. Entretanto, os argumentos utilizados são os mesmos de 135 anos atrás, negando riscos de doenças e também os benefícios dos imunizantes, acusações estas fáceis de se combater com pesquisas científicas e informações de boa qualidade.

 
“O movimento no Brasil é menos preocupante do que em muitos países da Europa ou nos Estados Unidos, mas está crescendo de uma forma muito preocupante. O número de sites relacionados a vacina que apresentam Fake News e são contrários a ela se encontram em maior quantidade do que aqueles com informações cientificamente comprovadas e de fácil compreensão, que expliquem a sua importância”, declara Guido Levi, diretor  a 12 anos da Sociedade Brasileira de Imunização (SBIM).


 
Segundo ele, para enfrentar essa onda de informações falsas, é necessário que todos que conheçam a sua importância, não só os órgãos governamentais ou profissionais de saúde e a mídia devem divulgar informações corretas e numa linguagem de fácil compreensão, para que a população não seja influenciada somente pelos sites contra a vacina.
 
“Não é pra dizer apenas maravilhas, se apresentar efeitos colaterais importantes e restrições, é importante colocá-los, mas é importante expor de uma forma que todos possam entender, abrindo portas para que possam tirar suas dúvidas”, afirma Levi.
 
VACINAÇÃO NO BRASIL

De acordo com Guido, o índice de vacinação vem caindo de uma maneira perigosa durante o passar dos anos, em níveis que permitem a explosão de doenças que a população brasileira não conhece mais a muitos anos.

 
“Tivemos avanços muitos importantes e agora corremos o risco de sofrer retrocesso, algo que não se pode permitir, porque seria um problema de saúde pública muito sério se todas essas doenças voltassem”, diz.

“É preciso ter a compreensão de que a vacina é um benefício social, quando você a toma está beneficiando toda a coletividade”, ressalta.

Como exemplo, mencionou o último caso recente de sarampo que ocorreu em 2019, em São Paulo, ele foi ocasionado por uma única pessoa que veio do exterior não vacinada e transmitiu para outras pessoas da sua casa. “Isso ocasionou na vacinação de todo o bairro do Higienópolis e redondezas, aplicando 200 mil doses.  Esse foi o custo social pago por causa de uma única pessoa”, conta Guido.



REVOLTAS ANTIVACINAÇÃO

 
“A primeira grande revolta de vacina aconteceu na Inglaterra, que na década de 50, no século XIX, decidiu tornar a vacinação obrigatória, ocasionando uma revolta na população. No caso, eles não eram contra a vacina, mas sim contra a sua obrigatoriedade. As ruas foram tomadas por milhares de pessoas realizando passeatas contra o ato. Até que em 1896 a vacinação passou a ser voluntária, quando isso aconteceu aumentou-se o número de pessoas vacinadas”, expõe.

No caso do Rio de Janeiro, que ocorreu em 1904, ele acredita que tenha sido uma junção de fatores que ocasionaram a revolta popular. Além da vacinação obrigatória, na mesma época iniciou-se a luta contra a febre amarela, fora a reurbanização da cidade, que ocasionou no desalojamento de milhares de pessoas. “Quando o presidente da época decidiu revogar a vacinação compulsória, os níveis continuaram positivos como se encontrava antes. Ou seja, as pessoas só não queriam ser obrigadas a tomar”, explicou.
 
“Tudo isso e mais o positivismo, junto com a liberdade de escolha individual e os fatores políticos acarretaram na revolta popular”, finaliza.

Atualmente, discutem-se em todos os lugares sobre a obrigatoriedade ou não da vacina da covid-19, mas segundo o presidente do SBIM, essa decisão será o último passo. “O que precisa é a divulgação da sua importância, para que se convença a população a tomar sem medidas drásticas, como é o caso da vacinação rotineira para que as crianças entrem na escola”, alerta.


 
“É mais por ai do que obrigar as pessoas a tomarem algo que elas provavelmente irão querer tomar espontaneamente, porque sabem que é importante e útil. Vão ver outras pessoas tomando sem adoecer e ninguém vai querer ter um familiar morrendo de covid-19 enquanto há vacina a disposição”, declara Guido.
 
POSICIONAMENTO DO PRESIDENTE

No dia 21 de outubro, o presidente Jair Bolsonaro (Sem Partido) afirmou que o governo não comprará doses da CoronaVac, desenvolvida pelo laboratório chinês Sinovac em parceria com o instituto Butantan.

A declaração desautorizou o ministro da Saúde, Eduardo Pazuello a comprar 46 milhões de doses do imunizante.


 
“A China, lamentavelmente, já existe um descrédito muito grande por parte da população, até porque, como muitos dizem, esse vírus teria nascido por lá”, apontou Bolsonaro em entrevista à Jovem Pan.
Além disso, na segunda-feira (26), declarou que um juiz não pode querer decidir sobre a obrigatoriedade da imunização contra a Covid-19. "Entendo que isso [não] é questão de Justiça, é uma questão de saúde acima de tudo. Não pode um juiz decidir se você vai ou não tomar a vacina. Isso não existe. Nós queremos buscar a solução para o caso", afirmou Bolsonaro a apoiadores na porta do Palácio da Alvorada.
 
 “Estamos vendo ao mesmo tempo um governo falando da não compra da vacina por ser chinesa e que sua matéria-prima é de má qualidade, mas esse mesmo governo já possui a decisão de compra da vacina de Oxford, que tem grande parte da sua matéria-prima chinesa. Atualmente, temos vários imunizantes que são de origem chinesa, seu posicionamento é um preconceito absurdo”, diz Guido Levi.

De acordo com o diretor do SBIM, o que precisa ser visto é o nível de eficácia de cada vacina. “Uma parte nós teremos com certa rapidez através dos testes imunológicos, mas outra parte dessa resposta vai vir com o tempo, com o não adoecimento em comparação entre aqueles que tomaram a vacina com aqueles que não a tomaram, mas não é o país procedente que faz a diferença [entre elas]”, destaca.


REFERÊNCIAS:

CAMBRICOLI, Fabiana. Um em cada quatro brasileiros resiste à ideia de tomar vacina contra a covid-19. Estadão. 5/9/2020. Disponível em: https://saude.estadao.com.br/noticias/geral,um-em-cada-quatro-brasileiros-resiste-a-ideia-de-tomar-vacina-contra-a-covid-19,70003427273?utm_source=estadao:app&utm_medium=noticia:compartilhamento. Acesso em: 26/10/2020.

 

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