25/02/2021 às 10h52min - Atualizada em 25/02/2021 às 10h45min

O tabu da Depressão: psicóloga Tatiane Lessa em um bate-papo sobre o tema

Em novembro de 2020 o IBGE divulgou que o número de pessoas diagnosticadas com a doença subiu 34,2% em seis anos

Júlio Lisboa - Editado por Alinne Morais
1 Adriana, 50 anos, volntária do CVV. 2 Dr Tatine Lessa: CRP: 06/109750 (19) 998143288
Banco de imagens/ Rawpixel
Após a estreia da minissérie "Cena do Crime – Mistério e Morte no Hotel Cecil" no streaming da Netflix, um assunto teve que ser discutido, a depressão. O tema, que é muitas vezes censurado e taxado como "frescura", deve entrar na roda de amigos, no almoço em família, no trabalho, nas escolas ou onde quer que esteja.

Em 2017 a OMS (Organização Mundial da Saúde) divulgou um documento comprovando que o Brasil é o país da América Latina que mais sofre com a doença. A OPAS (Organização Pan-Americana da Saúde) também divulgou que atualmente que 1 a cada 4 pessoas sofre de depressão nas Américas. Ela divulgou também que “Cerca de 800 mil pessoas morrem por suicídio a cada ano - sendo essa a segunda principal causa de morte entre pessoas com idade entre 15 e 29 anos.”
 
Adriana Rizzo, voluntária do CVV (Centro de Valorização de Vidas) declarou que no ano passado eles tiveram cercas de 3,2 milhões de atendimentos no ano passado mas que não houve um aumento significativo.

Ela também explicou como funciona o seu cargo na CVV: “somos todos voluntários, sem uma profissão específica, mas dispostos a doar atenção para quem precisa; que passam por um treinamento oferecido pelo próprio CVV, por cerca de 3 meses, para que nos capacitemos para fazer este acolhimento que o CVV oferece.”.
 


Já a doutora Tatiane Lessa, que é psicóloga, mestre e doutora pela UFSCAR informou que sentiu o aumento durante a pandemia. No bate-papo a seguir ela fala um pouco mais sobre o assunto.

“Infelizmente a situação da pandemia nos traz desafios bastante importantes como lidar com a morte de um parente, amigos ou pessoas próximas; perdemos a liberdade do ir e vir a hora que quisermos; as relações interpessoais foram prejudicadas pois por mais que as chamadas de vídeo sejam um instrumento bastante importante, a nossa cultura tem a necessidade do encontro, do toque, do abraço e a pandemia impossibilitou tudo isso. Além de todos esses aspectos fomos obrigados a nos reinventar em diversas funções como trabalhar com as crianças em casa, conviver com os familiares 24 horas por dia, exercer tarefas diárias que talvez não fossem habituais, além da possibilidade de problemas financeiro.
Todas essas modificações do nosso dia a dia podem ocorrer de maneira natural para algumas pessoas mas para outras podem se tornar um problema pois reorganiza toda a dinâmica de vida e as vezes podem gerar um problema psíquico."
 
O que é a depressão e quais os principais sintomas?
Segundo a OMS a depressão é uma tristeza persistente que o impede o indivíduo de realizar as tarefas cotidianas e que deve ocorrer por pelo menos duas semanas. Outras características são comuns a esse quadro como perda de energia; mudanças no apetite; aumento ou redução do sono; ansiedade; perda de concentração; indecisão; inquietude; sensação de culpa ou desesperança, baixa auto estima e pensamentos suicidas.
 
Você acredita que atualmente existe uma causa maior que desenvolva a doença?
Acredito que o estilo de vida que levamos pode auxiliar sim essa doença. Sabemos que muitos processos orgânicos geram a depressão, mas os fatores ambientais também contribuem para que o problema psíquico se desenvolva. Atualmente levamos uma vida pouco saudável, temos pouco tempo para olhar para nossas questões e fragilidades. Tudo isso contribui negativamente e os problemas psíquicos acabam encontrando um terreno fértil para se desenvolverem.
 
No caso de Elisa Lam, abordado em 
"Cena do Crime – Mistério e Morte no Hotel Cecil", no vídeo em que a jovem está no elevador tem vários comportamentos estranhos, você acredita que são comportamentos de uma pessoa que sofre de bipolaridade e depressão?
Acredito que apenas pelo vídeo não seria possível definir um diagnóstico de bipolaridade, depressão ou ambos. Para compor um diagnóstico preciso é necessário coletar diversas informações acerca do paciente, dado que não é possível na análise de 3 minutos de vídeo. Contudo, ao assistirmos o vídeo podemos perceber comportamentos não usuais em um elevador pois, normalmente, as pessoas entram, acionam o botão do andar de destino, podem desistir de entrar, enfim, comportamentos esperados para essa situação. A pessoa do vídeo demonstra claramente que está perturbada, olha para os lados como se estivesse sendo perseguida por alguém, gesticula com as mãos como se estivesse conversando com alguém que não aparece no vídeo, o que pode ser um indicativo de alucinações. Ou seja, é um caso que deveria ser olhado com cuidado, mas que apenas pela análise do vídeo seria impreciso qualquer tipo de diagnóstico
 
Em seu ponto de vista, séries de TV como esta ajuda uma pessoa com estes problemas ou se torna mais uma dificuldade para elas que assistem?
Acho que sim e não. As vezes ao assistir uma série a pessoa se identifica com aquele personagem e esse pode ser o gatilho para ela pedir ajuda. Nesse caso eu considero que seria positivo. No entanto, em alguns casos o pedido de ajuda pode não acontecer e até mesmo intensificar aquele problema que a pessoa está passando. Por isso minha sugestão seria ter cuidado com séries que abordam essas questões psicológicas pois você precisa estar atento aos pensamentos que esses documentários trazem e entender se é ou não positivo para você.
 
O que uma pessoa que sofre deste transtorno pode fazer para ficar com a mente mais saudável?
A primeira coisa é pedir ajuda a um profissional qualificado, ou seja, a um psicólogo com registro no Conselho de Psicologia e um psiquiatra caso seja necessário o uso medicamentoso. Esse é um cuidado bastante importante pois muitas pessoas dizem fazer terapias ou coach e não são profissionais qualificados para tal. Um acompanhamento desqualificado, inclusive, poderia piorar ainda mais o quadro psíquico dessa pessoa, o que pode ser muito perigoso. Infelizmente as pessoas acreditam que só devem ir ao psicólogo aqueles com graves problemas mentais e isso é um tabu da nossa sociedade. O psicólogo é um profissional qualificado para auxiliar você a identificar a origem dos seus problemas e como poderia melhorar sua qualidade de vida, ele não é seu amigo pois seu papel é muito diferente disso. Sua função é auxiliar as pessoas em busca do autoconhecimento e, dessa forma, proporcionar melhor qualidade de vida. Inclusive em casos de depressão, por exemplo, as pessoas imaginam que apenas o remédio é o suficiente e não é! Pois o remédio auxiliar mas não busca a origem do que está no processo depressivo. Essa busca só poderá ser realizada por meio da escuta profissional do psicólogo juntamente com o paciente. Inclusive ir ao psicólogo para realizar um processo terapêutico deveria ser feito por todas as pessoas pois se conhecer é a melhor forma de evitar o adoecimento. Como cuidamos da saúde física nos alimentando bem e fazendo atividades físicas, deveríamos cuidar de nossa saúde mental fazendo terapia!
 
Por fim, a doutora explica como podemos combater a doença:
Buscar o autoconhecimento com ajuda qualificada. Infelizmente nossa sociedade não deixa muito tempo para investirmos em nossa saúde mental e isso gera problemas. Precisamos dedicar tempo para nos conectarmos conosco e esse processo é muito importante nesse combate. Claro que mesmo quando realizamos essa conexão o adoecimento psíquico pode ocorrer mas estar amparado por um bom processo de psicoterapia auxiliaria bastante a todos nós.

                                                                     

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