08/05/2021 às 16h49min - Atualizada em 08/05/2021 às 16h32min

(Quando) ter tempo não é o suficiente

Aila Beatriz da Silva Inete - Editado por Andrieli Torres
Vetor criado por freepik - br.freepik.com

 

Um dia eu estava voltando para minha rotina. Na segunda semana de março, as minhas férias acabaram e, bem nesse mês, consegui um novo estágio. Eu estava animada, mesmo já morrendo de preguiça, eu estava animada. 

 

Nesse mesmo mês, os casos de covid no país começaram aparecer e aparecer. A universidade começou a montar equipes de monitoramento e análises. O medo foi crescendo, a insegurança e as coisas foram fechando. A universidade parou, aulas canceladas até segunda ordem. O meu estágio, no qual eu estava há pouco mais de uma semana, também suspendeu as atividades presenciais.  Naquele momento, parecia algo passageiro, coisa de quinze, vinte dias - iremos aproveitar para ver a reta final do BBB20. 

 

Mas isso já dura mais de um ano. 

 

Em um primeiro momento, eu estava animada, ativa, produzindo as coisas, lendo bibliografia das disciplinas e entrando em projetos. Mas aí tudo apertou. Os casos aumentaram, perdi familiares, meus parentes fizeram besteiras e tudo caiu em cima da gente. Eu não conseguia me concentrar, ser produtivo, estudar ou ler.

 

E para mim, aquilo era terrível. 

 

Eu estava em casa, eu deveria fazer alguma coisa. Eu tinha tempo, muito tempo. Mas não era o suficiente. Os meses iam passando. Cada vez mais eu via vídeos, posts e textos de como ser ativa em tempos de pandemia. Parecia algo muito simples, eu tinha “tudo” para ser produtiva.

 

Por que eu não conseguia?

 

Porque nem todo mundo funciona do mesmo jeito. Porque nem todo mundo tem as mesmas experiências, os mesmo problemas e angústias. Agora eu entendo. Mas naqueles meses eu não entendia e, nossa, que sensação horrível. 

 

Eu não falava sobre a minha improdutividade. Mas eu estava estourada e quando eu finalmente falei sobre aquilo, foi como se eu tivesse tirado uma carga de dez toneladas das minhas costas. 

 

“O mundo não cansa de indicar um caminho para a felicidade que se resume a mais e mais e mais: compre mais, tenha mais, faça mais, transe mais, seja mais”, Mark Manson diz no livro A sutil Arte de ligar o Foda-se. Antes desse trecho, ele fala que a TV, mídia e as pessoas não cansam de indicar meios para sermos mais felizes - sucesso profissional, bom carro, boa casa, namorados bonitos, etc. 

 

Isso cansa. 

 

Me forcei a ser produtiva porque eu sentia que era a minha obrigação ser - afinal, todos diziam que precisávamos ser, porque essa é a nova era. Quando eu vi outras pessoas compartilhando os mesmos sentimentos que o meu, eu me senti amparada. 

 

Eu não estava bem, não me adaptei. 

 

E, assim... tudo bem.

 

Não se martirize. Não precisamos ser bons o tempo todo. Precisamos ser o melhor para nós. 

 

Tudo bem, estou escrevendo esse texto em um momento de pura estabilidade. Tem dias que eu não estou assim. Mas é isto. 

 

Seguimos. 

 

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