31/05/2021 às 21h27min - Atualizada em 31/05/2021 às 21h27min

Inclusão dos pais e responsáveis das crianças e adolescentes na educação à distância

O ensino remoto evidenciou as diferenças de acesso à internet e apoio familiar no aprendizado

Sarah Lydia, Ana Caroline Silva, Roberta Mourão e Thais Cristina de Oliveira - Revisado por Liliane de Lima
Garoto assistindo aula à distância - Foto: Reprodução/Pixabay

Em meio à tensão da pandemia, o ensino a distância enfrentou novos desdobramentos. A relação de pais e responsáveis e a educação dos filhos se apresentou como parte essencial para uma vivência mais saudável para crianças e jovens, além da necessidade de um apoio por parte do ensino, para a continuidade da aprendizagem dos estudantes. 

De acordo com a Organização das Nações Unidas (ONU), 9 em cada 10 estudantes estão estudando fora do ambiente escolar. Essa nova realidade traz consigo grandes desafios relacionados tanto às novas mudanças causadas no ambiente familiar, quanto às formas de aprendizado.

A preocupação dos pais em relação ao desenvolvimento educacional dos filhos nesse novo cenário mundial é um dos desafios enfrentados por Igor Gomes Silva, pai de um menino de 7 anos que está no primeiro ano do ensino fundamental. Para Igor, o primeiro impacto na vida de seu filho foi não poder ir para a escola, deixando a situação de estudar em casa complicada. “Eu achei muito difícil para ele, porque ele é uma criança que deveria estar na escola com a professora profissional e com as turmas na sala de aula”, comenta.

“A minha maior dificuldade com meu filho é que não tenho habilidade de ensinar ele como o profissional já sabe”, afirma Igor sobre a dificuldade em ensinar. Para ele, outro ponto negativo é o fato da escola enviar apenas atividades impressas para serem feitas em casa, não oferecendo o suporte necessário e passando a responsabilidade do ensino para os pais. 

Mesmo com todas as dificuldades, Igor espera que as aulas presenciais voltem apenas quando estiver seguro para as crianças em relação a contaminação do covid-19.

Para lidar com o aprendizado e dinâmica das crianças, Thaina de Oliveira, mãe de três meninas - Rayssa, de 5 anos, Maria Eduarda, de 4 anos, e Manuela, de 4 meses -, utilizou de diversas atividades para entreter as filhas: pintura com tintas, atividades com massinha, brincadeiras no quintal e muitos DVDs.  

Além disso, a mãe conta que a escola teve um papel importante nesse período, com uma interação constante todo dia do mês, para a retirada e entrega das atividades na escola. ‘’Desde quando começou a pandemia, a gente tem um grupo no WhatsApp para o acompanhamento das atividades com a professora e os alunos. Teve uma interatividade muito grande da professora no grupo, pra saber como estavam os alunos indo para fazer as atividades, não foi largado de mão, foi muito interessante’’, comenta. 

Para ouvir sobre a nossa reportagem, é só clicar abaixo:



Educação à distância e PCDs


Em entrevista com Sueli de Almeida, de 46 anos. Sueli relata a vivência com seu filho Fernando de Almeida, de 14 anos, estudante do ensino fundamental. A escola estadual em que ele estuda mantém o contato com os pais e responsáveis durante as aulas à distância. 

Fernando é diagnosticado com deficiência intelectual e atraso na linguagem, e está  com dificuldades na aprendizagem pela falta de interação física entre escola e aluno. Para a mãe, Sueli, o ensino remoto não é eficaz. “É frustrante terem passado todas essas crianças do ano sem eles terem tido aula. (...) Aula online, é difícil, eles não aprenderam nada.’’

Até o quinto ano do ensino fundamental, Murilo de Souza, que possui Transtorno do espectro do autismo (TEA), frequentava o ensino público da sua cidade. Quando sua mãe, Camila Mourão, optou por matriculá-lo na Associação de Pais e Amigos Excepcionais (APAE) para o melhor desenvolvimento do seu filho, e sofreu com julgamentos de algumas pessoas depois da sua decisão. “Quando eu tirei ele da escola, as pessoas falavam pra mim, mas você vai direto do convívio de criança normal, ele vai fazer as coisas que as outras crianças com deficiência fazem”, lembra. 

Esse não foi o único desafio no ensino do jovem de 15 anos e da sua mãe, a pandemia trouxe o ensino remoto e a falta de socialização alterando a rotina da família e a responsabilidade do ensino transferida para os pais.A dona de casa desempenha o papel integral na organização da casa e no auxílio do seu filho nas resoluções das atividades enviadas pela APAE. 

A adaptação encontrada pela Associação foi o envio das atividades já impressas e a  orientação para que os pais busquem e entreguem as tarefas disponibilizadas. Ainda em conjunto com esse sistema ocorre o envio das tarefas para que os pais façam as impressões e realizem as atividades. 

Camila nem sempre consegue acompanhar os ritmos das tarefas escolares e acaba deixando algumas lições passarem, pois possui uma rotina cansativa e desempenha o papel de organização da sua casa e cuidado com sua outra filha. “Eu faço as atividades já  impressas e que já estão aqui em casa. A que eles enviam pra mim nem sempre eu faço, mas estou pecando um pouco com isso.É que essa pandemia é difícil pra todo mundo porque eu não tenho família aqui. Tudo sou eu”, afirma.

Durante a realização de atividades o Murilo precisa do acompanhamento da mãe para ajuda e para fotografar  tarefas que serão enviadas no grupo para os professores verificarem o encaminhamento do estudante.Camila relata que seu filho tem a coordenação motora fina comprometida e por isso ele não gosta tanto de fazer alguns tipos de atividades,como educação física, mas ele sempre faz.“As atividades são todos os dias,mas deixo juntar,por exemplo,segunda e terça e faço segunda, terça e quarta”, afirma sobre os dias que realiza as lições.

O acompanhamento pedagógico e psicopedagógico presencial é oferecido pela APAE e pelo menos a cada quinze dias ele passa pelo psicólogo ou pela Educação Física. O que não é realidade da família da dona de casa,Fabiana dos Santos, mãe do casal de gêmeos, Mariana e Junior, de 10 anos, que frequentam o quinto ano do fundamental na escola pública de sua cidade.O seu filho possui síndrome de Down e a escola de onde mora não oferece auxílio pedagógico e psicológico para o seu filho.

Além da falta de acompanhamento com o profissional, somam-se as poucas atividades adaptadas e a diferença do tratamento da escola com sua irmã e o seu filho. Fabiana relata que assumiu o papel de educadora durante a pandemia foi ela e o que ajudou o desenvolvimento de tarefas e educação do seu filho foi ela ser estudante de pedagogia.Ainda complementa que a sua filha é mais procurada pelos professores do que seu filho. “Ela (Marina) é mais procurada do que ele (Júnior), ele já não tem muito o acompanhamento das lições.Se ela não fazia lição, a professora pergunta o que acontece e ele não”.

As maiores dificuldades encontradas por Fabiana no acompanhamento das lições são os conteúdos rasos e a procura dela por coisas de fora,conteúdos,na tentativa de ajudar os seus filhos a não ficarem com grande defasagem na aprendizagem. 

Para a professora de educação especial e especialista em deficiência intelectual, Marcela Gallegos, uma das maiores dificuldades que os pais encontram é o não entendimento das lições enviadas pelos professores e falta de ferramentas dos pais para explicarem as lições para seus filhos.“Por exemplo,a criança tem que colocar o título, mas como explico pra ela que tem que ler e tem que inserir o título sobre aquele tema. Eles (pais) sentem que não tem ferramentas para isso”, afirma.

A sensação de angústia e frustração nos pais por não obter todas as atividades adaptadas e auxílios para as crianças com deficiência.O que Marcela diz é que muitas crianças estão tentando sobreviver porque as escolas não conseguem dar respostas para esses alunos e pais. Ela entende que isso não é má vontade e nem desinteresse, mas isso porque os professores estão acumulados e não conseguem dar conta, pois ninguém estava preparado para essa situação.

Segundo a especialista, é preciso que as escolas tenham um planejamento dentro de seus departamentos para as atividades diferenciadas para as crianças com deficiência.“Mesmo estando à distância eles poderiam usar o zoom que tem mais recursos que o Meet, receber visitas, psico materiais, coisas que fossem uma resposta concreta para eles”.
 

Acesso à educação online


​De acordo com pesquisa feita pela Fundação Carlos Chagas, ‘Educação escolar em tempos de pandemia na visão de professoras/es da Educação Básica’, das estratégias educacionais utilizadas, 37,2% são atividades impressas enviadas para os alunos, 38,3% são videoaulas gravadas e apenas 29,8% representam as aulas ao vivo, contando ainda com 0,6% de comunicação por rádio.

Dentre o contexto de aulas realizadas ao vivo (online) encontra-se João Gonçalves, tem três filhos, mas apenas dois deles ainda estudam, de 14 e nove anos. Sobre a primeira mudança que ocorreu com as aulas presenciais para remotas, cita a necessidade que teve de trocar a operadora da internet pelo motivo de o sinal ser muito ruim do que usava. 

Como ponto positivo citou o conforto quanto ao horário de acordar, a economia de combustível, e a diminuição de ter que pegar um congestionamento no trânsito durante o percurso para a escola. Como pontos negativos, relatou a dificuldade que seus filhos enfrentam durante a aula. “Adaptar meus filhos a permanecer em sala de aula online, devido a inquietação deles saindo do ambiente de estudo”, comenta.

Para João, a ociosidade dos filhos por falta dos colegas de classe faz parte também das dificuldades que afetam a concentração durante a aula. Suas expectativas são altas para a volta das aulas presenciais para que os filhos possam ter um contato direto com a professora e tirar dúvidas. “Não é a mesma coisa, estar com a professora perguntando em sala de aula do que no ensino online, devido a timidez que eles têm na comunicação”, diz João. Ele deseja que as aulas presenciais voltem o mais breve possível para que seus filhos possam recuperar a perda de aprendizagem que tiveram.  

A pesquisa feita pela Fundação Chagas ainda revelou um aumento da relação escola-família de 45,6% e do aluno com sua família de 47,2%. Essas relações puderam ser presenciadas por muitas pessoas, uma delas foi Andreza Duarte, é fotógrafa e mãe de dois filhos, um de seis anos que está no primeiro ano do fundamental e o outro de 11 anos que está no sexto ano. 

Mesmo com o aumento do contato que teve com os filhos, precisou se adaptar com os novos desafios, dentre eles organizar o seu tempo em relação às tarefas de casa, trabalho e auxílio nas atividades escolares. “Eu passei a exercer o papel de professora dentro de casa, então ficou muito difícil pra mim, conciliar abrir esse tempo pra estar ensinando eles”, comenta Andreza.

Para a fotógrafa, a primeira mudança ocorrida em relação a aula online foi a perda do contato social, pois seus filhos não puderam mais encontrar seus colegas da escola. 

Aponta pontos negativos no ensino a distância, como exemplo, a dependência que seus filhos possuem dela para executar as tarefas da escola e o tempo que consegue tirar para ensiná-los que não consegue ser o mesmo que teriam com uma professora. “Tem muitas tarefas que eles não conseguem executar sozinhos, eu não tenho o mesmo tempo que eles teriam na escola, não consigo tirar esse tempo todo em casa e creio que se eles estivessem na escola estariam aprendendo mais do que estão aprendendo em casa.”, conclui. Andreza tem esperança que as aulas voltem logo para que o ensino das crianças não seja prejudicado.

Para a neuropsicopedagoga, Andreza Menezes, a mudança do ensino presencial para o remoto trouxe grandes mudanças como a perda do contato social. “Eles estavam acostumados com um ambiente cheio de referências externas e o isolamento os tirou desse ambiente”, afirma.

Menezes, que é também terapeuta Familiar Sistêmica e Educadora Parental, acredita que o conselho para a forma e cuidados que os pais devem ter nesse momento é principalmente o contato com os filhos, com união, atenção e equilíbrio nas tarefas domésticas. “Os pais devem ter um olhar de acolhimento e usar a flexibilidade para poderem amenizar esse impacto do isolamento. Transformar o lar num local agradável, de muitas conversas e aprendizados”, declara.

Muitos pais precisam se colocar no papel de professores para os filhos, a fim de ajudá-los nas atividades escolares, gerando muito estresse por precisarem redefinir todo o tempo e se desafiar a ocupar um papel antes feito apenas por profissionais. 

Andreza Menezes acredita na importância que os pais têm de serem positivos nesse momento e incentiva a equilibrarem o momento de estudo e trabalho com momentos de lazer. “Eu oriento os pais a tirarem um dia de folga dentro da própria casa e fazer atividades agradáveis na medida do possível. Nesse novo movimento as crianças e adolescentes precisam de foco e eles só conseguirão isso se os pais tiverem também”, diz a terapeuta. 


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