04/06/2021 às 11h24min - Atualizada em 04/06/2021 às 01h48min

Resenha: Coraline e o Mundo Secreto

Coragem é o que não falta para essa garotinha de cabelos azuis e galochas amarelas

Letícia Aguiar - Editado por Andrieli Torres
Reprodução/ internet
Cabelos azuis, capa e galochas amarelas, curiosidade e muita coragem. Essas descrições te lembram alguém? Com certeza você deve estar pensando em uma garotinha destemida do palácio cor de rosa, sim, ela mesma, Coraline Jones, a personagem marcante da primeira animação 3D feita em Stop-Motion.

Inspirado no livro “Coraline" (2002) de Neil Gaiman, a produção de Henry Selick, é marcada por uma narrativa surpreendente e um design encantador, apesar do seu tom um tanto sombrio. Coraline é uma menina curiosa que se mudou para a mansão cor de rosa (pink palace) com seus pais, que apesar de trabalharem com jardinagem, não gostam nem um pouco de terra.

Sozinha e sem atenção dos pais, que só ligam para o trabalho, a garotinha de cabelos azuis vai conhecer sua vizinhança, na tentativa de sair um pouco do tédio. Apesar de excêntricos e incomparáveis, o garoto Wybie, as senhoras Spink e Forcible e o senhor Bobinsky, não são capazes de entreter Coraline, só lhe restando explorar o palácio cor de rosa.



Nessa “nova aventura” ela poderia imaginar tudo, menos que encontraria uma passagem secreta na porta da sala de estar, que a levaria para um mundo paralelo, onde tudo é mais bonito, colorido e seus “outros” pais são completamente atenciosos, mesmo com os macabros botões no lugar dos olhos. Mas como nada é totalmente perfeito, a nossa garotinha logo descobre que esse outro mundo é, na verdade, uma verdadeira armadilha para crianças, que assim como ela, estão infelizes.

Essa realidade perfeita é obra da outra mãe, que espiona a vida de Coraline através de uma boneca, uma espécie de cópia da garota, encontrada por seu amigo Wybie na casa onde mora com sua avó. É por meio dessa “espiã”, que a bruxa consegue montar uma vida perfeita e com tudo que a menina gostaria, criando uma perigosa ilusão de mundo ideal. Porém, seu verdadeiro desejo é capturar as crianças e se alimentar de suas almas. Provavelmente é por isso, que os olhos são substituídos por botões, já que eles são a “janela da alma”.



Guiada por um gato preto, que ao contrário das superstições, enche-lhe de muita sorte, Coraline tenta fugir da realidade alternativa, pois não quer ceder aos desejos da outra mãe e ter seus olhos substituídos por botões, e consequentemente, a perda de sua alma. Mesmo sendo a nova cobiça da bruxa maquiavélica, a garota descobre que não havia sido a única e outras três crianças já passaram por aquele lugar. A partir daí, a menininha corajosa tem a missão de salvar a si mesma, seus pais, capturados pela outra mãe, e as almas das crianças aprisionadas pela vilã.

Longe de ser uma animação comum, "Coraline e o Mundo Secreto' é uma verdadeira engenhosidade, primeiro porque para ser realizada em Stop Motion, foi necessário filmar os puppets, individualmente, por 24 vezes, gerando a ideia de movimento. Além disso, a produção teve apoio de 500 pessoas e 70 delas eram fabricantes de bonecos, só a boneca de Coraline levou de três a quatro meses para ficar pronta. Já a versão final da animação, resultou de cerca de quatro anos de trabalho.



Quando comparado ao livro, o filme manteve a narrativa original, mas trouxe algumas mudanças, por exemplo, no livro não existe o personagem “Wyborn” ou Wybie, sendo uma exclusividade da animação. Outra peculiaridade é que a cor da casa de Coraline não é citada no livro, somente no audiovisual. Mais além, na produção escrita, a capa da personagem é azul, suas galochas são amarelas e seus cabelos são pretos.

O gato e a porta pela qual Coraline vai ao mundo secreto, também são diferentes. O gato tem olhos verdes e não azuis como no filme, e a porta é grande e de madeira, nada parecida com a “portinha” da animação, que chega a lembrar a passagem de Alice para o País das Maravilhas. Outra curiosidade é que a nossa querida protagonista é muito mais lógica no livro e precisa resolver tudo sozinha, sem o divertido e atrapalhado Wybie.

Mesmo com algumas diferenças do livro, o filme é um raro produto estético, tanto por sua fotografia, que mescla entre o horror e o belo, provocando nos telespectadores um certo “medinho”, atípico dos desenhos, quanto pelo seu bom uso das cores e dos recursos visuais. Quando estamos no verdadeiro mundo de Coraline, as cores são mais frias, já na realidade paralela, tudo é mais vibrante e alaranjado, demarcando bem a transição de um lugar para o outro.



Entretanto, a animação não conquista somente por seus recursos imagéticos, a mensagem em si é muito forte, já que podemos perceber nitidamente o conceito de “parentalidade distraída”. Esse termo remete aos pais que não prestam a devida atenção nos filhos, seja por uso de aparelhos tecnológicos ou extrema dedicação ao trabalho, podendo expor a criança a uma situação de risco.
       
Se pensarmos com atenção, Coraline só vai em busca de alguma distração, porque seus pais estão sempre ocupados e nunca têm tempo para ela. Essa situação acaba levando a garota à uma armadilha, na qual ela quase perdeu tudo, seus pais e “sua alma”. Ainda que “perder a alma”, seja uma exclusividade da narrativa e não do nosso mundo, o filme nos faz pensar em como as ocupações do mundo atual podem acabar nos distanciando do que realmente importa: as pessoas que amamos!
 
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