29/07/2021 às 23h59min - Atualizada em 29/07/2021 às 23h50min

Sem descanso!

Compondo a linha de frente, os trabalhadores da saúde seguem trabalhando num ritmo acelerado e desgastante

Letícia Aguiar - Editado por Andrieli Torres
Foto: Reprodução/Internet
Olho para o relógio e lá está ele marcando17h30. Como de costume é esse o horário que ela começa o seu “ritual”:  toma café, banho, coloca a farda, pega a bolsa e vem me chamar: “Vamos lá? Já está na minha hora de ir trabalhar”. Agora são exatamente 18h. Retiro o carro da garagem e vou levá-la, sabendo que como de costume, ela nunca se atrasa.

Chegando no hospital, desce do carro e lá começa mais uma noite de trabalho. Você pode estar se questionando “quem” é ela? Mas calma, era isso mesmo que eu ia te falar, “ela” é minha mãe! Só que não é apenas a minha mãe, é também uma técnica em enfermagem, a quem meus olhos dão um adeus, noite sim, noite não, que é como a escala dela funciona.

E se você pensar um pouco vai notar que além de minha mãe e técnica de enfermagem, ela é uma das pessoas que fazem parte da linha de frente contra o coronavírus. Arriscado? Sim, meus olhos também já viram quando a Covid chegou até ela. Foram dias de medo, angústia e esperança, para que, mamãe, como eu carinhosamente a chamo, saísse dessa. Felizmente, dona Cecília venceu o grande inimigo dos tempos modernos...

Agradeço a Deus, ao destino, ao universo, a quem couber nos meus agradecimentos, porque meus olhos não precisaram vê-la partir. Mas infelizmente, na alternância das noites, eu preciso deixar que ela vá cumprir o seu trabalho, e não digo infelizmente por isso, digo porque quando a vejo chegar em casa, só existe uma palavra para descrevê-la: EXAUSTÃO! Se você quer saber, mamãe não tirou férias desde o início da pandemia, ela segue trabalhando freneticamente para salvar vidas.

Heroína? Não, eu não gosto de romantizar a jornada cansativa e as olheiras que cobrem seus olhos. Mas sim, ela e todos da linha de frente estão sendo fundamentais, porém não quero tachá-los como heróis e, sim, como humanos! Porque se você só olha o lado do bom herói, eu vejo o lado do desgaste, da falta de férias, da falta de noites bem dormidas, da falta dela conversando comigo, da falta.

Entretanto não quero que você pense que estou desmerecendo o trabalho dos profissionais da saúde ou o trabalho de mamãe. Eu quero, na verdade, te pedir compaixão e empatia. Sabia que enquanto tem gente lotando os bares e as ruas das cidades, Cecílias, mamães, papais, tios, primos, estão nos hospitais, trabalhando e dando tudo de si? Pois é, saiba que eles irão continuar lá, já que não temos nem de longe uma previsão do fim. Por isso, eu te digo, CUIDE-SE, cuide dos seus, de você, cuide do futuro e cuide deles, dos que não pararam um minuto sequer. Eu jamais pedirei para minha mãe deixar de trabalhar, de cuidar de gente e da gente.Contudo, por meio das minhas palavras, eu posso te pedir, pensa um pouco, ainda há muito o que acontecer...

Mas fica tranquilo! Eu continuarei levando-a para trabalhar, noite sim, noite não, porque dentro dela existe um amor muito grande e sincero: o amor por cuidar de pessoas. Assim, apesar do cansaço e do medo, tenha certeza que Cecília vai seguir fazendo o que ela nasceu para fazer...Meus olhos prosseguirão a se despedirem dela, só que meu coração vai sempre ficar sorrindo, cheio de orgulho, porque por trás daquele meu adeus de quando ela entra pela porta do hospital, existem um “eu te amo” e um “eu me orgulho muito de você”, que me permitirão deixá-la partir!

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