05/03/2021 às 09h27min - Atualizada em 05/03/2021 às 09h22min

Das ruas aos oceanos: o descarte irregular das máscaras na pandemia

Estudo australiano possibilita a reutilização de máscaras para construir estradas mais resistentes e diminuir os impactos ambientais

Karina Almeida - Editado por Andrieli Torres
Máscara descartada irregularmente | Reprodução Pixabay

Em mais um dia de trabalho, você sai e tranca a porta de casa. Já no meio do caminho, tem aquela sutil sensação de que esqueceu algo. A dúvida “será que eu tranquei a porta” martela na cabeça. O jeito é parar - mesmo com o risco de perder a hora - e conferir se está tudo ali. Chaves, celular, carteira e guarda-chuva estão na bolsa, mas a sensação persiste. De repente, você olha para o chão e vê três ou quatro máscaras usadas no meio fio, quase indo para o esgoto. Agora você sabe que vai ter que voltar para casa, esqueceu a máscara e não pode seguir sem ela. 

Além dos itens pessoais, não podemos mais esquecer das máscaras, que se tornaram item indispensável no cotidiano. Ao sair observamos uma variedade de estilos, tamanhos, cores e materiais nos rostos das pessoas. Ou pelo menos é onde devem estar. Em uma simples caminhada, é só olhar para o chão e podemos esbarrar com alguma máscara ‘enfeitando’ a rua. Largadas no gramado do parque, jogadas no monte de lixo espalhado na calçada ou, até mesmo, a caminho do esgoto. 

Aqui começa o problema acerca do descarte irregular das máscaras. Diante das exigências sobre o uso, o tecido foi eleito como uma alternativa de proteção menos prejudicial ao meio ambiente. São mais acessíveis e podem ser reutilizadas após a correta higienização. A Organização Mundial da Saúde (OMS) indica que essas podem ser lavadas por até 30 vezes antes de ficarem desgastadas e garantirem menos proteção. É necessário que sejam descartadas corretamente ou até mesmo em locais de reciclagem de tecido. 

O modelo descartável, antes utilizado principalmente por profissionais da saúde, também se tornou popular. Mas, ao contrário do tecido, não podem ser lavadas e reutilizadas. Tem vida útil curta e precisam ser descartadas corretamente no lixo para evitar contaminação e acúmulo em locais inadequados. E não é bem isso o que acontece quando encontramos máscaras jogadas na rua. 

A crise sanitária também fez com que aumentasse o uso de equipamentos de proteção individual (EPIs) entre profissionais da saúde. A demanda aumentou consideravelmente em virtude da Covid-19, que exigiu maior cuidado e proteção de máscaras e luvas hospitalares, por exemplo. Segundo a Agência Brasil, dados da Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe) mostram que em junho de 2020 a geração de lixo hospitalar no Brasil aumentou 20% em comparação a igual período do ano anterior. 

O descarte irregular gera, além do acúmulo em aterros sanitários, problemas a longo prazo, como contaminação e grandes problemas ambientais. Quando uma máscara descartável é jogada na calçada, está sujeita a um longo e prejudicial caminho. Basta apenas algum tempo para que elas acumulem ou seguem direto para o esgoto, com destino ao mar aberto. Desde 2020 já se discute o destino destes resíduos e o impacto que tem no meio ambiente, principalmente nos oceanos. 

Segundo um levantamento divulgado pela Ocean Conservancy, ONG norte-americana com o objetivo de proteger os oceanos, estão sendo jogadas nas águas do Atlântico, Pacífico e Índico cerca de 129 bilhões de máscaras descartáveis e 65 bilhões de luvas plásticas por mês. Assim, a poluição gerada por resíduos da pandemia pode ser um problema com consequências a longo prazo para o meio ambiente. É preciso considerar que as proteções faciais são feitas de plásticos não biodegradáveis, ou seja, são necessários centenas de anos para a decomposição.

Para evitar que resíduos fiquem à deriva nos mares, é importante que ocorra o descarte correto. Insumos e equipamentos hospitalares precisam ter como destino o lixo biológico, a fim de evitar contaminação. Já itens pessoais e de uso popular, como as máscaras descartáveis, devem ser higienizadas e não devem, em hipótese alguma, ser depositadas irregularmente na rua. Resta uma dúvida: é possível reciclar as máscaras descartáveis? 

Muitos pesquisadores e ativistas buscam formas de reduzir o impacto da poluição residual da pandemia com alternativas e soluções sustentáveis. Recentemente, um estudo publicado na revista científica internacional Science of The Total Environment revelou que máscaras faciais usadas descartadas podem ser reutilizadas para construir estradas mais resistentes e baratas. A pesquisa é de um grupo do Instituto Real de Tecnologia de Melbourne (RMIT - sigla em inglês), da Universidade de Melbourne, na Austrália. 

O grupo desenvolveu um material formado por concreto reciclado, proveniente de construções demolidas, e por máscaras descartáveis trituradas. Segundo o estudo, a inclusão da máscara desfiada pode melhorar a ductilidade, flexibilidade e força das pavimentações, o que torna o material mais resistente e passível de se utilizar nas estradas. Assim, para cada quilômetro pavimentado com esse material seria reutilizadas cerca de três milhões de máscaras descartáveis, o equivalente a mais de 90 toneladas de resíduos. 

O uso de máscaras é primordial no cotidiano e continuará sendo por muito tempo. Vale ressaltar que é um instrumento de proteção contra o vírus e, junto com o distanciamento, importante para o controle da circulação da Covid-19. Dessa forma, é relevante lembrar que, lugar de máscara é no rosto e não ‘enfeitando’ as ruas e poluindo - ainda mais - o meio ambiente e os oceanos.

 

REFERÊNCIAS 

Brasil pode descartar mais de 12,7 bilhões de máscaras de tecido | Agência Brasil 

Geração de lixo hospitalar no Brasil aumenta 20% em junho 

CNN Brasil - Mais de 120 bilhões de máscaras são descartadas por mês nos oceanos 

Publicação página Menos1lixo no Instagram 

 

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