16/07/2021 às 10h56min - Atualizada em 16/07/2021 às 10h54min

O que meu passado mostrava no espelho

É estranho buscar, mesmo que inconscientemente, voltar a ser como era antes

Hellen Vasconcelos - Editado por Andrieli Torres
Foto de Miriam Espacio no Pexels

O ato de se reconhecer no reflexo do espelho, por mais corriqueiro que seja, é empoderador. Essa sou eu. Contemplar a imagem e vê-la como um todo, não em fragmentos separados por status do tipo: meu nariz é feio mas minha orelha é legal. Pior ainda: minha barriga está grande, mas ela já foi chapada; será que uma dieta resolve? Me ver e comparar meus traços com os do passado é exaustivo. Ignorando os aspectos físicos e emocionais em que eu me encontrava, me apego apenas à estética que se enquadra melhor ao padrão aceito. 

 

É estranho buscar, mesmo que inconscientemente, voltar a ser como era antes. Tentar caber em roupas do início da minha adolescência. Ficar frustrada por meu cabelo ou minha pele não serem macios como antes. Coloco a culpa em meu descaso ou má alimentação, acreditando que se me tornar vigilante a cada passo tudo vai voltar a ser como antes. No fundo eu sei que não vai, mas me apego a essa imagem antiga, que vale ressaltar, eu nem gostava tanto na época. É só aquela falsa impressão de que no passado tudo era melhor.

  

Esse sentimento é ainda pior durante processos de aceitação de alguma caraterística sua. Aconteceu com Dhozeane Ferreira assim como com tantas outras pessoas que fizeram transição capilar. Ela escolheu passar pela transição para aceitar a estrutura natural de seu cabelo, mas o caminho não é uma linha reta de amor e admiração. Dhozeane se sentia “feia e triste” e sentia saudades da praticidade e da estética do cabelo liso.  “O ser humano nunca está satisfeito com o que tem e nem como é.”

 

O processo de aceitação não tem uma linha de chegada. O autoconhecimento tem que andar lado a lado das mudanças da vida, e só assim conseguimos nos reconhecer em cada etapa. É natural mudar, tanto física como emocionalmente. O potencial de adaptação e crescimento do nosso corpo deveria ser celebrado, e a imagem refletida nesse exato momento deveria ser amada. Cada marca ali conta uma história, boa ou ruim, mas que ajudam a construir quem eu sou. Talvez pareça muito clichê ou dramático, mas os pequenos pedacinhos que enxergo no espelho ajudam a ver melhor aquilo que sou por dentro.


O melhor mesmo é se sentir bem no agora, é o único momento que temos para nos amar e nos reconhecer. Dhozeane também acredita nisso. “Mas com o cacheado me sinto com identidade própria e me sinto mais madura. Mais bonita.”

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