12/11/2021 às 11h45min - Atualizada em 12/11/2021 às 11h05min

A literatura como remédio para a alma

A biblioterapia busca nos livros literários a ajuda para transformações pessoais

Ianna Oliveira Ardisson - Editado por Andrieli Torres
Fonte/Reprodução: Google
A biblioterapia possibilita que o texto literário seja usado como terapia. Por meio da leitura se dá a identificação da pessoa com o que está lendo e nesse processo de interação com o livro se dá a transformação que se necessita. Percebe-se que  a emoção liberada no ato de ler pode produzir o alívio de tensões e purificar o estado psíquico do leitor. Essa terapia por meio dos livros acontece pela capacidade da literatura de pacificar as emoções.
 
Brunna Batista, 28, compartilha uma experiência transformadora com a leitura vivida quando ainda era adolescente, ela conta:
 
 “Quando tinha 13 anos e li Pollyanna e Pollyanna Moça da Eleanor H. Porter. Naquela época passei a ver o mundo de outra forma após essa leitura, pois a personagem principal tem um grande amor a vida e sempre tenta ver o lado positivo de qualquer acontecimento. Desde então isso passou a ser rotina em minha vida: ver o pote meio cheio.”




 
É interessante notar como na literatura, uma obra conversa com a outra e traz conexões ao leitor. Podemos perceber esse poder de conexões dos livros quando Brunna traz o exemplo de um romance  que marcou a vida dela:

“Recentemente tive uma 2ª experiência com o livro Mil beijos de Garoto da Tillie Cole. A princípio pensei que seria mais um livro bobinho de romance, mas me surpreendi com a história. A protagonista me lembrou muito de Pollyanna pela sua leveza e alegria em viver a vida. Como não se emocionar e levar isso pra nossa vida pessoal? Um livro que mexeu com minhas emoções e me fez perceber o quanto viver a realidade de forma positiva pode me fazer bem e mudar a vida de quem convive comigo.”

 

 
A prática da biblioterapia pressupõe a prescrição de materiais de leitura para auxiliarem no desenvolver e manter da saúde emocional. É uma prática benéfica também quando compartilhada em grupos de leitura em que se expõe aos outros o que a leitura lhe agregou. Poder compartilhar em grupo nos isola da solidão e o elo que une a todos é o texto literário comum analisado.
 
Dentre os vários objetivos da biblioterapia, destaca-se:  auxiliar no melhor entendimento de frustração e conflito; prestar auxílio na análise de comportamento; proporcionar experiência sem ser necessário passar pelos perigos reais e estimular a imaginação.

A própria interpretação do texto no decorrer da leitura é considerada terapêutica, já que por meio dela o leitor tem liberdade de dar diferentes sentidos ao texto com o qual se relaciona. No processo de leitura, ao compreender o livro, dá-se também a dinâmica de entender a si mesmo. Além disso, a leitura proporciona a introspecção que leva o indivíduo a parar e refletir sobre seus sentimentos e ações.


Em um vídeo no canal “Tedx Talks”, no YouTube, a psicóloga Cristiana Seixas explica um pouco sobre o que é a biblioterapia. Ela afirma que cada um já tem uma certa intimidade com o termo na prática e considera que é possível perceber isso por meio de duas perguntas. Ao responder “sim” a uma dessas indagações se tem um sinal, segundo ela, que você já vivenciou na pele esse processo terapêutico. As duas perguntas que ela propõe para essa reflexão são:
  1. “Você já teve a impressão de que um livro funcionou como um verdadeiro terapeuta pra você? Ele acolheu você em um momento de dificuldade, nomeou as suas angústias, mostrou perspectivas que você ainda não considerava e provocou uma verdadeira transformação na sua vida?”
  2. “Conversando com alguém, de vez em quando te atravessa um pensamento: ‘eu acho que essa pessoa precisava ler tal livro’. Aí você recomenda, ou prescreve, ou compra e dá de presente ou empresta?”
Milena Silva, 28, vivenciou esse processo de ter o livro como “terapeuta” e nos conta um pouco da experiência dela:
“O livro que me marcou e me fez repensar muitas coisas foi A Cabana, ele mexeu muito comigo porque me mostrou que as vezes podemos passar por situações que vão nos machucar e que poderão nos fazer ter vontade de desistir, mas ser forte as vezes não é fácil e que precisamos sentir a dor da perda ou do abandono, para que possamos aprender a manter a nossa fé e sempre acreditar que coisas melhores virão! É um livro que faz a gente olhar para dentro de nós mesmos em busca de compreensão e aceitação.”


A psicóloga Cristiana Seixas considera o profissional biblioterapeuta como um relações públicas entre a pessoa e o livro que a pode ajudar. Ela destaca que, no processo, um autor chama o outro nas mais diversas questões pelas quais as pessoas passam. Para enfatizar sobre a identificação que um texto pode gerar, a psicóloga explica que, algumas vezes,  a “impressão não era a que você estava lendo o livro, mas que o livro estava lendo você.”


Cristiana analisa que a literatura é utilizada para nomear as angústias e para abrir novas perspectivas, nessa descoberta incentiva-se, também, que seja utilizada como ferramenta a escrita, a qual pode ser de livre expressão ou escrita ficcional.

É muito interessante perceber os benefícios da biblioterapia na saúde mental. Seixas traz o exemplo de um programa integrante da Política Pública de Saúde adotada na Inglaterra, nomeado “Books on prescription”. Nessa iniciativa foi observado que o oferecimento de livros e a promoção de rodas de leitura substituem significativamente o uso de antidepressivos. Muito bom ter a literatura como auxiliar no tratamento de doenças. Mas, mesmo que o livro não venha a substituir medicações, já pode-se ter grandes conquistas, nas pequenas transformações pessoais, que a companhia de um livro pode nos proporcionar.

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