30/06/2022 às 13h13min - Atualizada em 30/06/2022 às 13h10min

Libertadores é manchada pelo racismo; argentinos entendem esses atos como "tradição"

Em todos os jogos de brasileiros fora de casa a torcida rival promove atos de preconceito; Conmebol promete, mas não cumpre a aplicação de sanções mais duras contra essas ações

NICKSON G. MONTENEGRO - labdicasjornalismo.com
Torcedor do Boca foi detido por imitar macaco em direção a torcida corinthiana. Reprodução/Fernando Bizarra/EFE

As torcidas do Flamengo, Fluminense, Palmeiras e RB Bragantino convivem com o racismo nesta edição da Libertadores. A maioria dos casos são semelhantes. Os torcedores são insultados com gritos de “Macaco” e com imitações do animal por parte da torcida adversária. Os acusados geralmente são liberados mediante pagamento de multa e o time denunciado e apenas multado. Porém, os casos não tem parado e o muitos deles não são julgados pela Conmebol, que promete, mas não cumpre ações contra o preconceito.
 

O último caso ocorreu na última quarta-feira, 28. Dois "torcedores" do Boca Juniors foram presos no Brasil por injúria racial. O crime aconteceu durante a partida do time argentino contra o Corinthians, na Neo Química Arena, em São Paulo, em partida válida pelas oitavas de final da Libertadores.


Durante o andamento do jogo, os dois foram flagrados imitando um macaco em direção a torcida corinthiana. Eles foram presos, mas após pagamento de fiança, logo foram liberados. 

 

O crime de injúria racial está inserido no parágrafo 3° do artigo 140 do Código Penal Brasileiro e consiste no ato de ofender a dignidade de  alguém com base em sua raça, etnia, cor, religião, idade, ou deficiência.  A punição prevista é de detenção de um a seis meses ou pagamento de multa. Tramita no Congresso Nacional uma ação para que a injúria tenha a mesma punição do racismo e que também dê cadeia.

 

O artigo 17 do Código Disciplinar da Conmebol ainda prevê punições para o time pelos comportamentos racistas da sua torcida. Uma multa mínima de U$ 100 mil (R$ 500 mil) pode ser aplicada e o time ainda pode ser punido jogando sem torcida ou sem parte dela nos jogos em casa. 

Recentemente, o jornal Folha de São Paulo fez uma matéria sobre o racismo promovido pelas torcidas de River e Boca Juniors. Quando a repórter Sylvia Colombo perguntou para um argentino sobre a repercussão da prisão do rapaz no jogo do Corinthians, o torcedor, que não foi identificado, disse: "Isso não é racismo. São brincadeiras de torcedores. O modo de provocar os brasileiros e chamá-los de 'monos' [macacos], como os do River são 'gallinas', é uma tradição". Esse rapaz estava próximo de onde fica a torcida La Doce, famosa pelo seu elo com a política local e a violência.

 

O caso de racismo registrado na última quinta não foi o primeiro dessa edição da Libertadores. Tem sido recorrente o número de manifestações racistas nos jogos da competição, principalmente contra os times brasileiros.

 

Corinthians e Boca Juniors se enfrentaram três vezes nesta edição e em todos os confrontos atos como o desta quinta foram vistos. Os  dois primeiros jogos foram válidos pela fase de grupos.

 

No primeiro jogo, realizado em São Paulo no dia 26 de abril, um torcedor do Boca, identificado como Leandro Ponzo, foi preso em flagrante por imitação de macaco para torcida do Corinthians, caso semelhante ao último relatado.

 

O argentino também foi liberado após pagamento de multa e ainda zombou do ocorrido nas redes sociais ao publicar um foto com a legenda “Aqui nada se passa” seguida do emoji de um macaco. 

 

Ele foi punido na Argentina pelos seus atos racistas e deve ficar cerca de quatro anos sem poder frequentar um estádio de futebol em Buenos Aires, capital argentina, segundo o diário Clarín.

 

No segundo jogo entre as equipes, dessa vez na Bombonera, na Argentina, em 17 de maio, os atos lamentáveis se repetiram. Prova que as punições aplicadas aos torcedores e ao time não têm surtido efeito.

 

Mas não foram apenas as partidas entre esses times que foram palco dos atos racistas. Na partida entre River Plate e Fortaleza, válida pela segunda rodada da fase de grupos, que aconteceu na Argentina, um torcedor do River foi flagrado atirando bananas nos torcedores do Fortaleza.

 

O homem foi identificado como Gustavo Sebastián Gómez. Ele foi punido na Argentina e deve dois anos impedido de frequentar estádios na capital do país, segundo jornais locais. O River ainda foi punido pela Conmebol e deve pagar multa de cerca de R$ 150 mil.

 

Devido a isso, a Amstel, patrocinadora oficial da Libertadores, e o Observatório da Discriminação Racial no futebol criaram o movimento Barulho Contra o Racismo. 


O projeto visa unir vozes das torcidas, jogadores, ex-jogadores e influenciadores, em manifestação contra o racismo nos estádios. Além disso, o movimento vai fornecer assessoria jurídica e psicológica para as vítimas de racismo no futebol. 


Outro problema que atrapalha a punição é que cada legislação local funciona de um jeito. E na última quarta (29), um "torcedor" do Cerro Porteño imitou um macaco na cara de um policial, que não fez nada.
 
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